Dennis González/ João Paulo Duo – Scapegrace (CF 144)
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Devo confessar que a impressão que tinha de João Paulo era de que se tratava dum pianista competente, mas cuja expressão carregava sempre uma enorme tristeza, aliada a uma excessiva introspecção. Estas duas obras vêm desvanecer completamente esse juízo. João Paulo é um músico que, pelo menos a partir destes discos, me parece capaz de soltar uma intensa criatividade, aliada ao lirismo que a sua obra sempre apresentou. Ora é esse lirismo enleante que se transmite ao trompetista Dennis González por forma a que “Scape Grace” seja uma obra com uma carga poética enorme. Desde o primeiro tema, ‘First Song’, prenuncia-se um ambiente de calma e beleza em que, surpreendentemente, um músico como González, homem ligado às franjas mais radicais do jazz, se encontra como peixe na água. Inspirado por João Paulo, o trompetista utiliza uma enorme contenção na sua expressão, que torna o seu discurso calmo e comunicante. Os momentos são altos, mas ‘Hymn for Later’ atinge um nível altíssimo, com uma esplêndida interacção dos dois discursos. “White Works” é uma obra em solo absoluto de piano. Sem querer vogar por exibicionismos estéreis, João Paulo canta com os seus dedos uma bela música.

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