Monthly Archives: May 2010

Jazz 6/6 review by Manuel Jorge Veloso

Dual Identity – Dual Identity (CF 172)
Tenho a perfeita consciência de que algumas das críticas reticentes ou mesmo negativas que hoje verto em Jazz 6×6 em relação a certos discos que este mês nos couberam colectivamente avaliar, vão marcadas por algum azedume quiçá ligado à falta de paciência deste velho maniento e rabugento, sempre em vésperas de retirada e descansada reforma.

O certo é que me custa sobretudo ver o talento desaproveitado e como que até refreado pelos próprios criadores de quem tanto sempre espero e que às vezes (felizmente poucas) me deixam desiludido e perplexo com obras cuja qualidade é apenas mediana mas podem surgir aos ouvidos mais incautos, até por um fenómeno de moda, como a maior das descobertas e invenções.

Ao contrário, não tem até agora acontecido esse tipo de desilusão a propósito das obras discográficas de dois músicos que nos últimos anos dei por mim a admirar e que curiosamente incorporam nas suas estéticas alguns dos traços mais inovadores do jazz actual: os saxofonistas Steve Lehman e Rudresh Mahanthappa.

Por exemplo, a presente gravação que é o resultado da feliz e oportuna edição em disco pela independente portuguesa Clean Feed da música que foi tocada em palco pelo Quinteto Dual Identity no festival Braga Jazz do ano passado, ao qual tive o gosto de assistir, preserva no presente e para futuro um dos mais importantes concertos realizados entre nós em 2009 e ao mesmo tempo um dos mais estimulantes exemplos de como o jazz está constantemente inquieto na sua multíplice evolução.

Como tive oportunidade de escrever a propósito desse mesmo concerto, é preciso «reconhecer que o nome-de-guerra Dual Identity é, de facto, um achado de aguda oportunidade (e, ao mesmo tempo, uma panóplia de significados e um mundo de potencialidades), pelas múltiplas vertentes que logo à partida possibilita. Em primeiro lugar, porque associa na “frente de sopros” dois saxofonistas de primeiríssima água: o cada vez mais maduro e soberano Steve Lehman e o sempre aventuroso e surpreendente Rudresh Mahanthappa; depois, porque, tocando ambos sax-alto (mas buscando e encorpando o som de forma inteiramente diversa), essa identidade dual mais facilmente se constrói (e ao mesmo se desconcerta e conflitua) na permanente e criativa interacção dos dois grandes músicos (…), de ambos com os restantes três companheiros de palco (…); e finalmente, ideal dos ideiais, de todo o quinteto com o próprio público! Melhor ainda: essa tal identidade dual, assim entendida, não é susceptível de desvendar-se, apenas, a um nível puramente instrumental (a face mais audível, material e imediata dos dois saxofonistas), o que nos leva a poder imaginar que, tivessem estado lado a lado um tenor e um alto, e jamais a dualidade teria sido esta mas sim outra! Mas ela deixa-se descobrir, ainda, em termos conceptuais, fornecendo sempre adubo a um terreno movediço, por vezes aplanado num aparente continuum em largas passagens de uma música altamente rigorosa e estruturada, outras vezes eriçado, nas escolhas e pelos escolhos individuais e colectivos, através de desbragadas improvisações sem fim à vista, crescendi de grande intensidade e à beira de entusiasmantes situações de climax, naquela que foi a revelação e a explanação de uma outra e nova forma de disseminar a acumulação de uma cultura jazzística específica e inequívoca, com as suas várias tradições, e ainda capaz de integrar, de forma dispersa, sinais de culturas-outras, como a judaica ou a hindú, que também estão nos genes desta Dual Identity.»

Sentindo-me incapaz de reformular de forma diferente o que então de forma assim convicta expressei sobre este concerto (agora tornado disco), aconselho o leitor a debruçar-se sobre o que de novo e diferente os meus caríssimos colegas de Jazz 6×6 terão aqui ao lado para dizer.
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Jazz 6/6 review by Raul Vaz Bernardo

Bernardo Sassetti Trio – Motion (CF 177)
O pianista Bernardo Sassetti é um artista completo. Não apenas um pianista, muito menos aquilo a que se convencionou designar por um pianista de jazz. É verdade que Sassetti começou pelo jazz, mas, hoje em dia é um músico que não quer espartilhar-se nessa etiqueta. Também é um artista que se revê em muitas outras artes para além da música. Parece que o último concerto de Sassetti, a que feliz ou infelizmente não assisti, foi um espectáculo multimédia, com recurso a processos doutras artes. Na presença do CD o que é que me resta? Tentar embrenhar-me no sonho de Sassetti embalado apenas pelas notas da música, sem recurso a outros atractivos sensoriais. E, nesse estrito campo, a obra não me deixa muito satisfeito. Falta-lhe o dinamismo que os viciados de jazz esperam, vive-se muito o efeito contemplativo do piano tão de moda. Efeitos que, hoje em dia, um Jarrett recusa, ainda que adoptados por outro génio do piano, Mehldau. Em ‘Bird and Beyond’ surge, aos meus ouvidos, uma clara recusa de Sassetti e seus músicos de evitar um “groove” jazz. A obra finda-se com um belo tema de Frederico Mompou com a intercepção do belo bolero ‘Historia de un Amor’.
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Jazz 6/6 review by Paulo Barbosa

Bernardo Sassetti Trio – Motion (CF 177)
Apesar do afastamento das edições discográficas, a continuada actividade deste trio em concerto reflecte-se de forma muito clara neste álbum. Sassetti, Barretto e Frazão evidenciam um supremo entendimento a três, um nível de comunicação que roça o telepático, acessível apenas a grandes músicos. Sassetti é um irremediável romântico e é essa a faceta do pianista que, mais ainda do que a sua inspiração na imagem e no cinema, conduz de forma mais determinante este novo registo. Para estes ouvidos, é exactamente nos temas mais líricos e emotivos – que constituem uma boa parte do álbum – que fica expresso o saudável apuramento da fórmula há quase uma década encetada com “Nocturno”. Há, no entanto, dois motivos de apreensão: 1) a opção de, por mera graça, se deitar a perder um belíssimo blues como “Revival” através da sua apresentação com uma qualidade sonora característica de uma emissão em onda média e 2) o “minimalismo repetitivo” (que ao vivo, mas nem tanto no disco, tende a tornar-se infindável) aqui presente no não por acaso intitulado “Movimento Circular” (ladeado pela excelente magia de “Reflexos”) ou, apesar da brilhante introdução a cargo de Alexandre Frazão, em “Bicubic”. Se bem que capaz de seduzir uma vasta faixa de ouvintes mais “casuais”, esta repetição de frases e motivos demasiado óbvios dificilmente poderá garantir o interesse por parte dos mais fiéis seguidores deste trio, os quais não estarão muito interessados no desgaste da fórmula, mas antes em continuar a ouvir o Sassetti que, felizmente, ainda se reencontra e redescobre em grande parte deste álbum.
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Jazz 6/6 review by Leonel Santos

Bernardo Sassetti Trio – Motion (CF 177)
Existe uma contradição em Bernardo Sassetti, um dos grandes pianistas de Jazz nacionais que, de há muito que não precisando provar nada a ninguém, foi atraiçoado pelo (merecido) sucesso de um disco, “Nocturno”, de 2002. Desde então, ele que é um dos mais profícuos músicos nacionais, parece procurar um som e uma personalidade que lhe fugiu por entre os dedos nos menos interessantes “Ascent” ou “Unreal”, mas que parece encontrar-se num classicismo que realmente tem muito a ver com Chopin, como por outro lado na forma feliz de sinestesia que realiza na música para cinema. “Motion” reflecte uma vez mais essa contradição ao recuperar o trio de piano Jazz mas sem lhe aproveitar a energia possível, hesitando entre o romantismo e o Jazz, abusando de tiques e clichés, e os momentos melhores são os mais «visuais», “O Homem Que Diz Adeus” ou “Vagabundo”, mas não deixam de ser interessantes o mais intimista “Homecoming Queen”, “Reflexos”, inspirado talvez em Philip Glass, e “Bird & Beyond” (digo eu que sou suspeito) a recordar como Sassetti não esqueceu.
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6/6 review by Antonio Branco

Bernardo Sassetti Trio – Motion (CF 177)
Em termos da discografia nacional de jazz, podemos falar em eras ante e pós “Nocturno”. O notável disco de 2003 marcou não só um ponto de viragem na carreira de Bernardo Sassetti, como igualmente em todo o panorama do jazz produzido em terras lusas. Sete anos depois, o trio regressa com “Motion”, confirmando a excelência da empatia artística entre Sassetti, Carlos Barretto e Alexandre Frazão. Revelando uma interacção quase telepática, o pianismo sereno, mas obsessivo de Sassetti encontra na solidez de Barretto e na delicadeza de Frazão os seus mais preciosos aliados. Sassetti parte do vocabulário jazzístico para desenvolver a abordagem própria que lhe reconhecemos, feita da exploração de pequenos motivos que se vão metamorfoseando e adquirindo diferentes nuances. O disco arranca logo com uma belíssima leitura de “Homecoming Queen”, um original de Mark Linkous, líder dos seminais Sparklehorse, recentemente desaparecido. O be-bop mutante de “Bird & Beyond” é talvez um dos momentos em que o trio mais se aproxima da fórmula mais jazzística do trio clássico. A obra do catalão Federico Mompou volta a ser magnificamente revisitada em “Canço Nr. VI”. Um disco que deixa no ar a interrogação sobre o que virá a seguir…
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Jazz 6/6 review by Rui Duarte


Bernardo Sassetti Trio – Motion (CF 177)

Este novo opus do trio de Bernardo Sassetti cumpre os desígnios de um artista que se assume como compositor criativo para além da interpretação ou da improvisação pianística de um bom músico de jazz.

“Motion” tem um projecto com princípio, meio e fim, tem um enredo. O fio da meada é o movimento de um quotidiano que se inicia no começo da manhã com uma belíssima interpretação de “Homecoming Queen”, tema do compositor pop Mark Linkous, a que se seguem círculos matinais; a meio da manhã ocorrem: reflexos e movimentos circulares e há uma belíssima melodia dedicada ao “Homem Que Diz Adeus” – uma figura típica da noite lisboeta.

Seguem-se outros movimentos vespertinos sugerindo viagens exteriores; sons de rádio em onda média como fundo sonoro, recordações de um blues e “Bird and Beyond” – um tema em free-bop bem disposto. O fim da tarde traz-nos o vagabundo, a estrada e objectos no espelho e a chegada à noite que termina com a audição da conhecida canção nr. 6 de Frederico Mompou, um bolero que se dança.

A interpretação musical deste roteiro é a de um trio em perfeita sintonia que a empatia conseguida em mais de 12 anos de comunhão musical faz funcionar. Sassetti cria em “Motion” um universo musical próprio, muito visual, cinemático, em câmara lenta assumida. Barretto no seu som grave sólido e Frazão nas suas subtilezas à volta do tempo, estão a seu lado funcionando como um trio de piano-jazz deve funcionar. A música é plena de melancolia, introspecção, muito circular e em ritmos lentos – o slow-motion presente.

Mais que um encadeado de músicas bem tocadas, “Motion” é uma obra completa que apenas peca por alguma monotonia do slow-motion mas que se situa num patamar acima da generalidade do bom jazz nacional que se pratica por cá.
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Le Son du Grisli review by Guillaume Belhomme

Dual Identity – Dual Identity (CF 172)
Dual Identity serait donc l’exemple parfait du disque enregistré par une formation conduite par de brillants musiciens – les saxophonistes Rudresh Mahanthappa et Steve Lehman, dont la singularité à l’alto n’est plus à démontrer – qui peine pourtant à convaincre, voire déçoit beaucoup. Si ce n’est sur exceptions (Manifold pour Lehman et The Beautiful Enabler pour Mahanthappa), la jeune discographie des deux saxophonistes a déjà beaucoup pâti de choix de productions pompiers, sur lesquels l’un et l’autre se sont même entendus sous le nom de Lehman (Travail, Transformation and Flow) : Dual Identity – disque qui emprunte son nom à un quintette naissant –, donc, de remettre ça. 

Tout avait pourtant assez bien commencé à entendre les deux premiers titres d’un concert enregistré au Braga Jazz Festival l’année dernière : « The General » et « Foster Brothers » révélant l’entente au son de mélodies tournant en boucle avec une intensité assez remarquable pour se tenir à distance de l’écueil jazz rock – le guitariste Liberty Ellman se montrant jusque-là d’une discrétion maligne. Et puis, sur SMS (SIC), voici le même guitariste exploitant avec une ardeur nouvelle mais aussi une inconsistance épatante une gamme pentatonique qui anéantira la raison qui guidait jusque-là le quintette.

En suiveurs motivés, Matthew Brewer à la contrebasse et Damion Reid à la batterie adoptent le parti pris vide et voici que l’écueil cité plus haut finit par faire son trou. Béant, celui-ci, au point que Mahanthappa et Lehman en arrivent à « sonner français » – évoquer ici rapidement l’école Lourau et associés qui n’en finit plus d’investir le domaine du jazz comme d’autres enregistrent (avec plus de discrétion tout de même) les plages sonores sensées faire patienter l’auditeur de France Info entre deux flashs identiques. Soporifique et, pour ce qui est de l’association Mahanthappa / Lehman, contraignant.
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