Daily Archives: September 7, 2010

Time Out Lisboa review by Jose Carlos Fernandes

Jorrit Dijkstra – Pillow Circles (CF 166)
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Jorrit Dijkstra, um holandês emigrado nos EUA, já aqui tinha sido elogiado a propósito de Maatjes, editado sob o nome The Flatlands Collective. Dijkstra manteve alguns dos membros deste sexteto e juntou-lhe novos elementos, obtendo um octeto de luxo cujos nomes mais sonantes são Tony Malaby e Jeb Bishop.

Com gente deste gabarito e uma instrumentação original que, além de Dijkstra (sax alto, sintetizador e electrónica), Malaby (sax tenor e soprano) e Bishop (trombone), inclui uma viola de arco (um instrumento raro no jazz), duas guitarras eléctricas (uma delas alternando com banjo), contrabaixo e bateria, obtém-se uma paleta tímbrica que faz envergonhar muitas big bands. Sobretudo porque as composições e arranjos de Dijkstra sabem tirar o máximo deste ramalhete de instrumentos.

No jazz acontece que alguns discos apresentam line-ups respeitáveis mas depois acabam poor dar a impressão de se estar a ouvir sempre o mesmo tema. Pillow Circles tem nove temas apenas identificados por números, mas nenhum corre o risco de anonimato e em todos há marcas distintivas: exuberância de sopros sobre tapete rítmico ondulante (nº34), solo de viola a tocar as estrelas (nº65), clima elegíaco, onírico e planante que deixa subentender inquietações e dissonâncias subterrâneas (nº18). Por vezes, dentro do próprio tema há mais variedade que nalguns discos inteiros: na peça nº88, viaja-se, imperceptivelmente, da serenidade à apoplexia e depois regressa-se à serenidade, e a nº19 é um caleidoscópio que passa pelos mais diversos registos.

A fechar o CD, a peça nº23, é dedicada a Jonny Greenwood, guitarrista dos Radiohead, e é difícil não ver na proeminência dada às guitarras e ao ambiente épico e denso, um aceno à banda britânica.

Time Out Lisboa review by Jose Carlos Fernandes

Carlos Bica – Matéria-Prima (CF 180)
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Enquanto os físicos necessitam de aparelhagem sofisticadíssima, como o LHC (Large Hadron Collider), para investigar os segredos da matéria e descobrir novas partículas, o jazz, para dar a conhecer novos mundos, só precisa dos velhos instrumentos de sempre – e de espírito inquisitivo.

A matéria-prima deste novo disco são, sobretudo, composições do próprio Carlos Bica, muitas já conhecidas de outras andanças, em particular do fabuloso trio Azul. Mas, depois de dissecada e recombinada por Matthias Schriefl (trompete), Mário Delgado (guitarra), João Paulo (piano, teclados, acordeão) e João Lobo (bateria), a matéria transmuta-se, pela alquimia do jazz, noutra coisa.

O CD abre com“DC”: guitarra e contrabaixo com arco a desenharem planuras americanas e cenários de road movies, sobre loop hipnótico de guitarra, numa atmosfera que evoca o período áureo de Bill Frisell, por alturas de Where in the World. A bateria e o orgão entram na liça, a sonoridade adensa-se e “DC” converte-se numa incandescente trip de rock minimal-lisérgico. O fecho do CD é simétrico, com Bica e Delgado a revisitarem “Paris, Texas”, de Ry Cooder, mas com o deserto sob o sol do meio-dia convertido numa planura crepuscular.

Entre estes extremos estende-se um microcosmos: “Bela Senão Sem”, intíma e delicada, “I Think I’ve Met You Before”, um blues obnóxio, “Iceland”, um cristal de pura beleza melódica, ou “Roses For You”, de lirismo trôpego e comovente.

É provável que a confirmação da existência do bosão de Higgs nada mude na sua vida. O mesmo não se pode dizer deste disco.

All About Jazz review by Glenn Astarita

TGB – Evil Things (CF 181)
Track review of “Planet Caravan”

 This electrifying Portuguese progressive-jazz trio pulls a lot of tricks out of its magic bag, but alleviates the flow a tad with its solicitous rendition of Black Sabbath’s “Planet Caravan.” Here, tubaist Sergio Carolino and guitarist Mario Delgado venture towards a metal-lite jazz aura, fused with a resonating jazz-blues-rock mix, culminating in a fuzzed-toned finale, as the soloists’ generate stepladder-like crescendos and melodic interpretations of the primary theme.
Delgado and Carolino toss a few nicely devised curve balls into this piece by morphing an avant jazz and rock-tinged improvisational segment. It’s a clever reworking of the original, abetted by the trio’s inauspicious and breezy opening, which leads to a dynamic opus, spiced with a translucent convergence of disparate genres. At times charming, yet irrefutably witty and powerful, this cover tune nicely augments an album that is loaded with keenly executed surprises.

Time Out Lisboa review by Jose Carlos Fernandes

Carlos Barretto – Labirintos (Clean Feed)
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Com os constrangimentos orçamentais a congelar por tempo indeterminado as ligações por TGV Porto-Vigo e Porto-Lisboa e com muitas linhas convencionais em estado comatoso, o futuro da ferrovia nacional está nas mãos de Lokomotiv, o trio liderado pelo contrabaixista Carlos Barretto.

O grupo tinha um desafio sério para resolver: as expectativas criadas pelos dois discos anteriores, Radio Song (2002) e Lokomotiv (2003), eram muito altas. Para mais, poderia atribuir-se parte do mérito destes notáveis registos à participação de dois “colossos” do jazz moderno: o clarinetista Louis Sclavis em Radio Song e o saxofonista barítono François Cornneloup em Lokomotiv.

Em Labirintos o trio apresenta-se sem reforços, mas não se sente a falta de ninguém. A guitarra de Mário Delgado está cada vez mais inventiva e ousada, a bateria de José Salgueiro alia solidez e versatilidade, Barretto ganhou desenvoltura nos solos e no uso do arco, mostrando que o trio aproveitou bem os sete anos transcorridos desde o último registo.

Em “Triklo Five” o contrabaixo e a bateria urdem um groove poderoso e saltitante, sobre o qual Mário Delgado, em registo cyborg, constrói um solo electrizante. Após um introspectivo interlúdio para contrabaixo solo (“Não sei quê”), a energia e os pedais de efeitos de Delgado voltam a impôr-se no tema-título, que deve muito mais aos King Crimson do que a Coleman Hawkins. As influências do rock progressivo e do jazz-rock dominam ainda “Tutti per Capita” e “Makambira”, esta última com Delgado a pincelar o fundo com efeitos atmosféricos que evocam Robert Fripp.

Os fãs do soft jazz poderão reclamar das sacudidelas e dos arranques bruscos, mas não há como negá-lo: o jazz dá o melhor de si quando sai dos carris.

Time Out Lisboa reviews by Jose Carlos Fernandes

Luxo em tempo de crise

Já aqui se deu conta de três discos essenciais de músicos portugueses incluídos nos recentes lançamentos da Clean Feed. Queiram por favor adicionar à lista de “bens de primeira necessidade” mais três items

Corro o risco de me repetir, mas no meio da cacofonia geral é necessário insistir: a lisboeta Clean Feed é hoje a mais importante editora de jazz do mundo. Pelos riscos que assume, pela amplitude estética e geográfica do catálogo, pela quantidade e qualidade média das edições.

Rudresh Mahanthappa e Steve Lehman são duas estrelas ascendentes do saxofone alto e dois dínamos criativos e a ideia de ter ambos na mesma banda parece boa demais para ser verdade. Mas é isso que acontece nos Dual Identity, a que se juntam Liberty Ellman (guitarra), Matt Brewer (contrabaixo) e Damion Reid (bateria). O quinteto esteve o ano passado na Culturgest, mas antes passou por Braga, em cujo festival de jazz foi registado este Dual Identity (*****). Os que se queixam de que “o jazz moderno já não swinga” deviam abrir as orelhas e os poros a esta rítmica convulsiva, complexa e poderosa, que não deixa de ser sensual apesar do rigor matemático e que tanto serpenteia como uma pitão (“Circus”) como se reinventa como drum’n’ bass esquizóide (“1010”). Sobre os ritmos intrincados, os dois saxes perseguem-se como dois besouros furiosos, rodando em torno um do outro, num circo aéreo que faz a Red Bull Air Race parecer um vôo charter carregado de turistas reformados.

O contrabaixista Chris Lightcap remodelou o seu grupo Bigmouth, com a substituição de Bill McHenry por Chris Cheek (sax) e a adição de Craig Taborn (teclados) e Andrew D’Angelo (sax, em três temas), mantendo-se os habituais Tony Malaby (sax) e Gerald Cleaver (bateria). O elenco estelar e o título do CD, DeLuxe (*****), sugerem despesismo e ostentação, mas não há aqui nada de supérfluo. Com uma sonoridade poderosa e cheia de autoridade, Lightcap comanda as operações ao longo de sete peças de sua autoria, de personalidade bem variada. Embora também haja lugar à introspecção (“Year of the Rooster”) domina a exuberância e a pulsão rítmica. E sempre que se juntam os três saxes tenor, o indicador de temperatura vai ao vermelho: até “Silvertone”, que começa de forma banal, vai aquecendo gradualmente e acaba com Malaby, Cheek e D’Angelo a soprar como se não houvesse amanhã.

De atmosferas bem diferentes trata Spiritual Lover (*****), do trio liderado pelo contrabaixista John Hébert, que conta com o camaleónico e omnipresente Gerald Cleaver (bateria) e o inventivo Benoît Delbecq (teclados). Entra-se num mundo de reverberações e refracções, como se o clássico trio com piano tivesse passado para o outro lado do espelho – se o Gato de Cheshire gosta de jazz, é este o seu combo favorito. “Spiritual Lover”, um tema de Andrew Hill, é atacado por Delbecq com sonoridade ácida de guitarra distorcida e converte-se num sonho febril e o standard “Here’s That Rainy Day” é desfigurado até ficar irreconhecível. Se “Cajun Christmas” e “Le Rêve Eveillé” são tão rarefeitos e delicados que uma rajada os poderia levar, “50808” é um ímpeto irresistível de bateria e contrabaixo, enquadrado por piano anguloso, e “Ando” é um fervilhar de ritmos ensimesmados e emaranhados. Delbecq, desdobrando-se por piano “normal” e preparado e diversos teclados, tece vasta gama de texturas e coloridos.

Três CDs bem diferentes entre si, que contrariam rumores e alarmes infundados sobre a periclitante saúde do jazz.

Time Out Lisboa review by Jose Carlos Fernandes

Convergence Quartet – Song/Dance (CF 187)
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“Convergência & imprevisibilidade” poderia ser um dos lemas do jazz. Um baterista canadiano (Harris Eisenstadt), um trompetista norte-americano (Taylor Ho Bynum) e um pianista e um contrabaixista ingleses (Alexander Hawkins e Dominic Lash) articularam-se num quarteto de atmosfera dominantemente lúdica e trocista, com identidade sólida mas semeado de dissonâncias e imprevistos. Ouça-se “Next Convergence”, com um clima hipnótico que é escaqueirado por um piano cada vez mais neurótico e agressivo. Ou contraste-se o tom elegíaco e contido de “Albert Ayler (His Life Was Too Short)” com “Kudala (Long Ago)”, uma desbunda festiva de inspiração sul-africana que não ficaria deslocado no projecto Guewel de Eisentadt, com Bynum a fazer a trompete soltar faíscas.

Time Out Lisboa review by Jose Carlos Fernandes

Angles – Epileptical West (CF 182)
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A mudança de inquilino na Casa Branca não minorou o desencantamento de Martin Küchen, saxofonista e líder do colectivo sueco Angles, nem desanuviou o seu diagnóstico do estado do mundo. Se no anterior Every Woman Is a Tree havia um “Peace Is Not For Us”, neste há um “Today Is Better Than Tomorrow” – não contem com ele para optimismos.

Mas deixemos o (não muito articulado) discurso político de Küchen e passemos à música: os elogios dispensados a Every Woman Is a Tree merecem ser reforçados neste CD, gravado ao vivo no Salão Brazil, em Coimbra, durante o Festival Jazz Ao Centro de 2009. O sexteto está mais solto e afoito e a qualidade de som supera a do registo anterior – e supera também as primeiras gravações no Salão Brazil, o que mostra que a engenharia da Clean Feed conseguiu debelar a acústica ingrata da sala.

Küchen, Magnus Broo (trompete), Mats Aleklint (trombone), Mattias Stahl (vibrafone), Johan Berthling (contrabaixo) e Kjell Nordeson (bateria) passam facilmente do lamento à celebração, da fúria à hipnose. Podem soar tão densos como uma big band, mas o vibrafone introduz uma leveza extra-terrena. Em “Present Absentees/Pygmees” um trombone exuberante arrasta o grupo para uma dança jubilatória de sabor africano, o tema-título abre ao rubro, passa por contagiante groove rock e incendeia-se em fanfarras dementes, “En Svensk Brownie” tem riffs endemoninhados sobre vibrafone enfeitiçante e bateria metronómica, “Every Woman Is a Tree” (uma revisitação) é galvanizado por solos de sax e trompete de alta voltagem.

Epileptical West não substituirá Norah Jones nos iPods de gestores e analistas financeiros, mas encontrará lugar junto de quem acredita que o jazz não é um fundo sonoro para acompanhar um bom whisky.