Jazz.pt review by Pedro Lopes

Matt Bauder – Day in Pictures (CF 210)****1/2
Imagine-se a seguinte moldura: cinco jovens nos seus 30, eles segurando cuidadosamente instrumentos e baquetas, ela cautelosamente encostada às teclas. Atrás, uma paisagem imaculada dos subúrbios americanos, casas fotocopiadas, relva milimetricamente aparada e modelos “American brand” estacionados em paralelo ao passeio.
Um primeiro olhar desatento para esta fotografia deixa antever um jazz sóbrio, harmonicamente correcto, com estrutura regular, secção rítmica swingada e solos intercalados. Contudo, a minúcia das segundas impressões revela uma juventude de cabelo desalinhado e a irreverência das “t-shirts” e das “jeans” desgastadas.
Metáforas à parte, “Day In Pictures” é mesmo um disco de jazz certinho, mas subtilmente adulterado pelo líder, Matt Bauder, aluno dos ilustres Anthony Braxton, Ron Kuivila e Alvin Lucier, e um dos três eixos do excelente projecto minimal Memorize The Sky. No registo ouvem-se composições e arranjos cuidados com a beleza intemporal do jazz da década de 1950, corrompidos pela impregnação de subtis movimentações atonais, emparelhamentos e dobras de saxofone / trompete na exposição ligeiramente desafinada dos temas (“Cleopatra’s Mood”) e quebras estruturais tangentes ao free bop (“Parks After Dark”).
Sete temas decorrem, oscilando entre duas ou três velocidades (algures entre a balada e o bop mais liberto), sem necessidade de recorrer constantemente a momentos expansivos, apesar da presença de reconhecidos improvisadores, como é o caso de Nate Wooley, dono de alguns dos melhores momentos a solo do registo (“Bill and Maza”). A presença de Angelica Sanchez é a menos tangível, optando a pianista por um trabalho harmónico de fundo, não se evidenciando das dinâmicas de grupo. A excepção à regra está patente no tema mais longo do registo (o já referido “Bill and Maza”), que se constrói progressivamente em torno do solo do piano.
Na tipificação dos temas de Bauder, a secção rítmica marca passo regular e swingado (“Two Lucks”), com Jason Ajemian, reconhecido pela associação com os projectos de Rob Mazurek (Chicago Underground Trio, Exploding Star Orchestra, Mandarin Movie) e Tomas Fujiwara (colaborador frequente de Taylor Ho Bynum e Matt Mitchel), a contribuir para o cruzamento das fronteiras da modernidade e da tradição, que parece guiar todo o disco.
No ouvido fica uma música extremamente agradável e bela, com um toque de desafio que nos garante estarmos no século XXI.

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