O Público review by Rodrigo Amado

Uma permanente inquietação

Ao quinto álbum, Carlos Bica & Azul atingem o ponto máximo de depuração, algures entre o jazz, a pop e uma total devoção ao formato canção. Rodrigo Amado

Carlos Bica & Azul – Things About (CF 239)
Carlos Bica, contrabaixista e compositor, tem conseguido manter ao longo de toda a sua carreira uma invejável vitalidade criativa, tendo por base uma permanente inquietação, uma busca do equilíbrio perfeito entre forma e abstracção, entre a magia do improviso e as linhas sublimes de uma canção. Desdobrando-se em inúmeras colaborações e em projectos como os Matéria Prima, com os quais editou o ano passado um fascinante registo de estreia, é no projecto Azul que encontramos a matriz original da sua música. Projecto partilhado com Frank Mobus (guitarra) e Jim Black (bateria), os Azul atingem neste “Things About” o seu ponto máximo de depuração, num registo que representa uma total devoção ao formato canção, aqui dominado de forma superior por Bica. Sem atingir o nível superlativo de “Believer”, anterior álbum do grupo editado em 2006, “Things About” não deixa de representar um enorme triunfo no percurso do contrabaixista. Sequências harmónicas, melodias e ambientes cinemáticos são trabalhados com rigor e intensidade pelos três músicos, erguendo canções que impressionam pelo seu formato “definitivo”, equilibrando de forma sublime elementos jazz, rock alternativo, blues e pop, em que nada é deixado ao acaso, numa demonstração de controlo criativo que acaba paradoxalmente por ser o único ponto fraco do álbum. Mas aquilo que se sente perder em espontaneidade, algo que permeava subtilmente as canções de “Believer”, ganha-se na exuberância poética dos oito temas que Bica compõe para este novo disco (dois deles em colaboração com Mobus), aos quais acresce aquilo que parece ser uma improvisação colectiva, um breve solo de bateria e um tema luminoso da autoria de João Paulo, “Canção vazia”, um dos pontos altos do disco. Destaque ainda para o tema título, “Things about”, com um “groove” contagiante que serve de base a solos poderosos de Bica e Mobus. Num álbum registado sobretudo em tempos médios e lentos (excepção feita ao breve e vibrante “Deixa pra lá”), marcado pela contenção sempre relevante de Black e por uma invulgar clareza das linhas de Mobus, Bica revela um fraseado maduro que recusa o acessório, particularmente incisivo quando pega no arco, e de uma beleza absoluta nas suas linhas em pizzicato (a evocar o som de Dave Holland). Mantendo a universalidade da sua música e apurando uma mestria rara na escrita de canções, Bica reafirma-se como um dos grandes nomes do jazz europeu.

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