Daily Archives: May 7, 2012

O Público review by Nuno Catarino

Lamaçal electro-acústico
Um trio que não tem medo de ligar a electricidade

LAMA – Oneiros (CF 240)
4 estrelas
O nome de Susana Santos Silva já não deverá soar totalmente desconhecido. A trompetista integra a notável Orquestra Jazz de Matosinhos, lançou recentemente um primeiro disco na condição de líder (o recomendável “Devil’s Dress”) e tem espalhado talento em projectos alheios, sendo o caso mais recente o álbum “Motor” de André Fernandes. Nos vários contextos Susana já confirmou a sua elevada qualidade técnica, além de uma refinada elegância no seu som.

Neste trio LAMA a trompetista está acompanhada pelo compatriota Gonçalo Almeida (contrabaixo, electrónica) e pelo canadense Greg Smith (bateria). O grupo trabalha um conjunto de composições – na maior parte originais de Almeida – com grande flexibilidade, expandindo-as através da improvisação pela capacidade individual de cada um dos músicos, que as vão moldando e integrando novos elementos.

Elemento essencial, característico e precioso neste “Oneiros” é a vertente electrónica – que infelizmente parece ainda passar ao lado da maior parte dos projectos com alguma ligação jazz, mesmo aqueles que nasceram neste século. Para os LAMA a electrónica não se limita à utilização de samples (responsabilidade de Gonçalo Almeida), mas também passa pelo som processado electronicamente dos instrumentos – contrabaixo e, pontualmente, trompete. Nas várias situações esta ligação à tomada é inteligentemente integrada, com os sons electrónicos a saberem entrar de forma sóbria, assumindo a sua presença ao longo de todo o trabalho.

A utilização de variados recursos técnicos permite ao trio a criação de ambientes distintos, num disco que, aparentando desafio e complexidade, se desvenda altamente recompensador para o ouvinte, na sua rica diversidade: alegria, groove, energia, melodismo, delicadeza, surpresa. Esta música electro-acústica faz da originalidade o seu ponto de honra, sendo difícil encontrar paralelo com  esta sonoridade. E isto é um dos melhores elogios que um músico que almeja a criatividade pode receber.

Jazz.pt review by Pedro Sousa

Scott Fields & Multiple Joyce Orchestra – Moersbow / OZZO (CF 236)
****
Scott Fields apresenta-nos duas obras distintas num só álbum. Na primeira faixa, de homenagem ao mestre do noise japonês Merzbow, conhecido por criar barulho a volumes extremos (pegue-se em “Green Wheels”, por exemplo), o compositor e guitarrista pede o oposto aos seus músicos: tocar o mais baixo possível. As três faixas seguintes constituem uma peça intitulada “OZZO”, a terceira de uma série de composições modulares para orquestras de câmara, no seguimento de “48 Motives” (1996) e “96 Gestures” (2001).

O trabalho da orquestra de 25 músicos equivale ao dos ensembles electroacústicos que têm sido editados pela Psi Records, a ECM e a hatOLOGY, desde Wolfgang Mitterer a Evan Parker, apesar de esta ser uma música bastante menos espectral do que a do Electro-Acoustic Ensemble do segundo. Não sem falhas: embora seja de louvar a inclusão de instrumentos como o acordeão, pouco usuais na música contemporânea escrita e na improvisada (Andrea Parkins é uma de poucas excepções), as suas intervenções deixam por vezes bastante a desejar, sendo até de gosto duvidoso, em parte porque o timbre parece insistir em não se colar com o resto dos instrumentos.

Algumas passagens de “OZZO” ganham um poder cinemático, parecendo a banda sonora de filmes expressionistas alemães (trata-se de momentos curtos, favorecendo uma espécie de desconstrução constante da melodia), ou apresentam influências da música clássica, a ponto de desvanecer as fronteiras com uma idiomática do jazz, que se encontra bastante presente no trabalho de Fields.

Jazz.pt review by Pedro Sousa

Luís Lopes – Lisbon-Berlin Trio (CF 234)
***1/2 
O álbum começa com sussurros e rangidos da secção rítmica berlinense, criando uma subversão negra típica deste carácter exploratório da nova música experimental e improvisada alemã. É um início prometedor para o que acaba por ser a melhor faixa do álbum. As intervenções crescentes de Luís Lopes acabam por determinar a estética que se segue por diante: este é um disco de jazz com uma forte dose de rock, fazendo a guitarra lembrar-nos, por vezes, incursões de Marc Ribot ou de Makoto Kawabata, em ataques com distorção até toda a música se transformar numa espécie de trash-jazz .

Este desenvolvimento cria uma expectativa que, infelizmente, acaba por se desvanecer. Em parte devido aos temas, que são algo passáveis, por soarem mais a perfeccionismo técnico do que a procura de uma sequência de notas com significado. Lillinger, que é um excelente baterista, comporta-se como um interruptor de electricidade: ou está ligado a 100% e a carregar no pedal ou atira-se para o “near silence”, o que acaba por tornar as faixas num duelo de casmurros em que cada um tenta impor a sua música, com Landferman a aguentar a ponte entre ambos.

Não que tal signifique que seja um mau trabalho, mas é desapontante o facto de haver desenvolvimentos excelentes em várias faixas que acabam sempre por ser cortados ou tornados curtos através das forças individuais.

Jazz.pt review by Rui Duarte

Kris Davis – Aeriol Piano (CF 233)
****
Um solo absoluto de uma pianista conotada com a facção mais vanguardista do jazz actual é um desafio para o ouvinte. Espera-se improvisação e criatividade, mas receia-se a confrontação com estados de alma menos agradáveis e eventuais agressões sonoras. São sentimentos, por vezes contraditórios, que génios artísticos como Cecil Taylor tão bem souberam explorar numa corrente estética libertária em que música, poesia e outras artes podem coalescer. Ora, fundamental para a que a honestidade musical num solo desta natureza esteja presente é necessário que o artista tenha saberes técnicos e sensibilidade musical apurados.

Kris Davis dispõe desse talento e de tais saberes. Em “Aeriol”, gravado em Portugal, desenvolve um trabalho pleno de inteligência criativa. Embrenhada na sua solidão, consciente dos sons e dos silêncios, explora as diferentes texturas e possibilidades sonoras do piano para criar composições que acabam estruturadas numa arquitectura coerente. Como no notável “Saturn Returns”, em que os extremos  das escalas do teclado se tocam, os contrastes entre as teclas e as cordas dialogam entre si e a percussão e o dedilhar se complementam. E Kris não evita esboçar ou referenciar melodias ou sentimentos melancólicos, como na sua versão de “All The Things You Are“ ou em “A Different Kind of Sleep“, em que o sono até pode acontecer, ou no final “Work for Water “.

A capacidade de inventar mantém-se ao longo do CD, sendo este um trabalho que respira e vive, não cristalizando em artifícios ou minimalismos fáceis. Há movimento e sinestesias (os olhos podem brilhar realmente em “Beam the Eyes“ ) e “ Stone” pode ser um trajecto curto e intenso. Muito interessante, sem nunca cansar.

Jazz.pt review by José Pessoa

Carlos Bica & Azul – Things About (CF 239)
****
Carlos Bica é um dos músicos portugueses com mais destaque internacional. A sua obra evidencia referências de múltiplos universos, da música erudita à folk, ao rock e a outras formas de improvisação. No seu percurso encontra-se uma sólida formação na Academia dos Amadores de Música, nos Cursos de Música do Estoril e na Escola Superior de Música de Würzburg, na Alemanha. Foi também membro de diversas orquestras de câmara.

O contrabaixista tem centrado muito a sua actividade em Berlim, cidade que nos últimos anos se converteu numa vibrante capital para a arte contemporânea e que o tem acolhido muito bem. Aí partilhou encontros com muitos músicos e projectos, como Diz, Tuomi, Bica-Klammer-Kalima, Essencia, Tango Toy. Entre eles, o trio Azul é, talvez, um dos melhores exemplos da qualidade excepcional da sua música. O trio é uma formação difícil, pois, caso não haja uma grande interacção colaborativa, expõem-se todas as fragilidades do conjunto. Não é esse o caso!

Jim Black é talvez a arma mais poderosa deste grupo. Tem um estilo imprevisível de percussão, cheio de humor e de ironia, que tanto pode ser frenético como doce no rogaçar das peles ou no arranhar dos pratos com as baquetas ou por meio de um arco. O efeito final é que importa, de interacção com os outros, de provocação e de captação do interesse dos ouvintes para as construções. A colaboração de Black com o preciosismo e o sentimento do contrabaixo de Bica torna-se simbiótica.

Pelo seu lado, Möbus é um guitarrista que dedica uma enorme atenção à harmonia, à melodia e às texturas, que exercita em improvisações bem estruturadas e desprovidas de quaisquer pirotecnias desnecessárias. Mesmo quando improvisa dá-nos a ilusão de que continua apenas a acompanhar os outros dois músicos.

Um das faixas de que mais gosto, em total contradança com a toada mais lenta do resto do álbum, é a enérgica “Deixa Pra Lá”. Ainda assim, esta edição não consegue ultrapassar o nível superlativo do último CD que publicou, há cinco anos (“Believer”), que será talvez o melhor trabalho do Azul.

Jazz.pt review by Paulo Barbosa

Carlos Bica & Azul – Things About (CF 239)
****1/2
Se Carlos Bica é um músico que há muito se recusa a fazer aquilo que outros possam já ter feito, o trio Azul tem representado, não obstante o sucesso do seu trabalho a solo e com o grupo Matéria-Prima, o mais importante veículo de expressão da sua originalidade.

O Azul tem quase uma década e meia de existência, sendo esta apenas a sua quinta edição discográfica, o que, mesmo tendo em conta que Frank Mobus e Jim Black são líderes bastante activos e músicos frequentemente solicitados para variadíssimos outros projectos, parece espelhar a opção de Bica de colocar a qualidade à frente da quantidade. “Believer”, o álbum com o qual o grupo comemorou a sua primeira década de existência, foi aquele que mais persistentemente por aqui rodou em todo o aparelho que tivesse um raio laser ou que lesse mp3, mas essa é uma posição que parece agora ficar mais ou menos ameaçada com a edição deste “Things About”. É extremamente difícil comparar as virtudes destes dois álbuns, até porque eles parecem ser os dois CDs de Bica que mais características partilham entre si, nomeadamente no que ao trabalho de composição concerne, o que é o mesmo que, noutros termos, reconhecer que nos encontramos perante mais um álbum absolutamente imperdível.

A diferença mais perceptível entre este e os anteriores trabalhos do Azul é talvez a de que Frank Mobus, além de continuar a desempenhar um importante papel melódico e textural em toda a música tocada pelo trio – a função de “pássaro-tecelão”, como uma vez a ele me referi a propósito de “Believer” –, se revela em várias destas faixas como um impressionante improvisador no sentido mais “jazzístico” da expressão, o que poderá abonar a seu favor – e a favor do trio como um todo – perante alguns ouvidos mais conservadores.

O fantástico “Sonho de Uma Manhã de Outono” que encerra o disco, no qual Mobus, afastando-se do modelo “friselliano” que está na base da sua abordagem guitarrística, chega a soar como um improvisador tão fluido e emotivo quanto Jim Hall ou o melhor Pat Metheny, constitui um esclaredor “tira-teimas” em relação a esta matéria.

Jim Black é, como de costume, uma delícia do princípio ao fim do disco. Imprevisível como ninguém, Black consegue ser um dos mais musicais bateristas da actualidade, sempre alerta, sempre inventivo, sempre ao serviço da música e dos seus colegas.

Pouco haverá a acrescentar relativamente aos dotes de compositor de Carlos Bica. Os oito temas que escreveu para este novo álbum (dois deles em parceria com Mobus) falam por si. No entanto, o disco é enriquecido ainda pela presença daquilo que parece ser uma improvisação total (com autoria atribuída aos três músicos), de um breve solo de bateria que funciona como uma perfeita introdução ao enérgico “Deixa Pra Lá” e ainda de uma deliciosa “Canção Vazia”, que de vazia nada tem, cedida por João Paulo Esteves da Silva.

Enquanto contrabaixista, Bica continua a impressionar com a precisão e o peso emocional de cada nota, uma invejável afinação sempre que recorre ao arco, a constante recusa em tocar o óbvio e a total entrega a cada momento da música que pratica, uma série de características superiores e absolutamente distintivas de um músico que continua a defender da melhor forma a honra do jazz nacional.

Jazz.pt review by João Moço

Harris Eisenstadt – September Trio (CF 229)
***1/2
Harris Eisenstadt tem-se vindo a afirmar no panorama do jazz contemporâneo. Este primeiro disco em formato trio pode vir a ser um passo decisivo num percurso em que gradualmente nos vem chamando a atenção. À frente do September Trio (formado com Angelica Sanchez no piano e Ellery Eskelin no saxofone tenor), o baterista apresenta uma música que, apesar de assente nas formas mais tradicionais do jazz e nos blues, não deixa de olhar para outros caminhos. Uma das características fundamentais que ligam as sete composições deste álbum é a sua delicadeza quase temática. Se, por um lado, podermos referir que por aqui pairam elementos do jazz de câmara, a verdade é que dentro do registo balada o trio vai também improvisando, mesmo que nunca de forma demasiado abstracta ou eruptiva. Ainda assim são os momentos de maior liberdade interpretativa e menor contenção que acabam por se destacar, como é disso exemplo o tema final, “September 7”.