Publico review by Rodrigo Amado

Visões de excesso

Registo de um memorável concerto no Jazz em Agosto 2011, Snakelust é um fascinante vortex de energia, ruído e música. Rodrigo Amado

Peter Brötzmann / Paal Nilssen-Love /  Massimo Pupillo /  Toshinori Kondo Hairy Bones – Snakelust (CF 252)
[4,5 estrelas]
Gravado ao vivo na edição 2011 do festival Jazz em Agosto e assinalando a continuidade da parceria entre a Clean Feed e a Fundação Calouste Gulbenkian, Snakelust é um verdadeiro murro no estômago, mesmo para aqueles habituados às andanças do novo jazz. Liderado pelo lendário saxofonista germânico Peter Brotzmann e composto por Toshinori Kondo no trompete, Massimo Pupillo no baixo eléctrico e Paal Nilssen-Love na bateria, o quarteto eléctrico destila 53 minutos, ininterruptos, de puro magma free-jazz, num vortex de energia, ruído e música que tudo engole. Mas vejamos bem; numa audição atenta (apenas para os mais audazes) começam a vislumbrar-se nesta música, para além do impressionante e notável staying-power dos músicos, uma multitude de níveis de percepção do som, parecendo frequentemente que estamos a ouvir simultâneamente duas ou três bandas distintas, unidas pela espiritualidade intergaláctica que nos foi legada por Coltrane, Pharoah Sanders, Albert Ayler ou Sun Ra. Peter Brotzmann, actualmente com 71 anos de idade, surge aqui em grande forma, soprando de forma furiosa num equilíbrio instável entre o insano e o surprendentemente ponderado, assinando uma das suas performances mais electrizantes dos últimos tempos. Kondo, sempre certeiro, encarrega-se de injectar saudáveis doses de electrónica bem como algumas tonalidades bluesy, a evocar uma das suas maiores influências: Miles Davis. Quanto a Pupillo e Nilssen-Love, pouco há a dizer, excepto que é, provavelmente, a mais endiabrada, demolidora e tonitruante secção rítmica de que há memória, fazendo tudo por tudo para quebrar as barreiras razoáveis do som. Que se ouça o disco do princípio ao fim, com prazer e uma vibrante sensação de descoberta, é o que faz deste registo audição obrigatória para todos os que investigam os limites mais longínquos do jazz.

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