Jornal do Brasil review by Luiz Orlando Carneiro

Ran Blake e Sara Serpa: uma associação rara no tempo e no espaço
O velho pianista “cult” e a jovem vocalista lisboeta lançam o CD ‘Aurora’

CF 264Sara Serpa/Ran Blake – Aurora (CF 264)
Ran Blake, 77 anos, não é somente um pianista muito original e requintado. É um músico cult, pioneiro daquele conúbio jazz-música erudita que o velho companheiro Gunther Schuller batizou de Third stream music. Ele foi, durante mais de quatro décadas, professor do New England Conservatory, e é detentor de uma MacArthur “Genius grant” – bolsa-distinção só concedida a talentos de “originalidade e dedicação extraordinárias em suas atividades criativas”. Desde adolescente, é fascinado pelo clima e pelas trilhas sonoras dos chamados films noirs. Não por acaso, um dos seus discos mais notáveis, Duo en noir (Between the lines, 1999), em parceria com o trompetista Enrico Rava, é inspirado em Alfred Hitchcock-Bernard Hermann (Psicose), Otto Preminger-David Raskin (Laura) e outras duplas (direção-música) de filmes policiais do gênero.

Contudo, na maioria dos diversos duos da discografia de Ran Blake não estão ao seu lado instrumentistas, mas sim cantoras. Ou melhor, vocalistas que com ele interagem na “transformação de canções clássicas em intensas e dramáticas experiências”, como anotou Thomas Cunniffe (Jazz History Online). O pianista começou a formar esses duos, na década de 60, com a vanguardista Jeanne Lee (1939-2000), sendo registro antológico dessa associação o álbum You stepped out of a cloud (Owl, 1989). Mais recentemente, ele gravou duas primorosas sessões para o selo Red Piano com Christiane Correa – vocalista nascida na Índia, em Bombaim, e radicada nos Estados Unidos desde 1979 (Out of the shadows, 2009; Down here below, Tribute to Abbey Lincoln, 2012). E ainda o CD Whirlpool (Jazz Project, 2010) com a já renomada cantora Dominique Eade, igualmente professora do New England Conservatory (NEC).

A outra vocalista que caiu nas graças de mestre Ran Blake é a portuguesa Sara Serpa, 33 anos, sua aluna, que fez a viagem (sem volta) para Nova York com escala em Boston (Berklee College of Music e NEC). Dona de uma voz (mezzo-soprano) que o seu mentor considera “mágica”, cristalina como água de nascente, a cantora portuguesa impressionou também vivamente o grande saxofonista Greg Osby: “Ela possui uma flexibilidade e uma destreza das quais não sou testemunha há um alarmante período de tempo”.

Em 2010, Blake e Serpa gravaram o álbum Camara obscura (Inner Circle), com excelente recepção por parte dos críticos, como o do blog Lucid Culture, que assim se referiu à performance da jovem lisboeta: “Ela aborda as canções com clareza e vulnerabilidade devastadoras, sem qualquer adorno ou enfeite, mas ao mesmo tempo absolutamente resoluta, sem nenhum temor”. Sara Serpa e Ran Blake em ‘Aurora’ O duo volta agora com o CD Aurora, lançamento da Clean Feed – etiqueta portuguesa de renome internacional, basicamente dedicada ao free jazz.

Trata-se de uma gravação feita ao vivo, em sua maior parte num concerto realizado em Lisboa, em maio do ano findo, constante de 12 faixas, das quais duas são solos do pianista e da vocalista, respectivamente: Mahler noir (8m), improvisação especulativa, densa e tensa, cheia de pressentimentos, de terças e quintas diminuídas, fragmentárias, em clima de suspense; Strange fruit (3m55), totalmente a capella, em forma de recitativo que dramatiza, corajosamente, a célebre canção de Billie Holiday que denunciou, em 1939, os linchamentos no Sul dos Estados Unidos – corpos negros pendentes das árvores como “estranhos frutos”.

O contraste entre a voz “nua”, sem vibrato, de Sara Serpa e as invenções harmônico-melódicas de Ran Blake – que não “acompanha” a vocalista, mas a instiga, interroga-a, e “comenta” suas respostas – é constante em todas as outras faixas. Principalmente em Dr. Mabuse (5m15), Moonride  (3m10), The band played on (2m25) e Fine and dandy (2m55). Neste standard, em tempo rápido, o pianista abre o jogo com um “prelúdio” de mais de um minuto; em Mabuse, Sara usa a voz como instrumento, sem palavras ou versos, numa peça de puro “jazz noir”. O duo homenageia Abbey Lincoln em duas baladas de seu repertório: When Autumn sings (3m10) e Love lament (5m25).
http://www.jb.com.br/jazz/noticias/2013/01/12/ran-blake-e-sara-serpa-uma-associacao-rara-no-tempo-e-no-espaco/

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