Jazz.pt review by José Pessoa

Martin Küchen – Histórias da vida

Também se narra com sons e este saxofonista sueco é perito nisso. Ainda vão a tempo de ouvir os filmes áudio a que deu os títulos “Bruder Beda” e “By Way of Deception”. Já fazem parte da história do jazz europeu e são incontornáveis.

Trespass Trio – Bruder Beda (CF 251)
Angles 8 – By Way of Deception – Live in Ljubljana (CF 256)
Classificação: 4,5/5
Não terá sido por acaso que os novos títulos do Trespass Trio e dos Angles, desta vez em formato de octeto (são habitualmente seis os seus integrantes), saíram ao público em simultâneo. O saxofonista sueco Martin Küchen sabe bem o que faz, tem-nos vindo a encantar com a qualidade, a profundidade e a intensidade dos seus trabalhos, e gosta de fazer entradas em grande.   “Bruder Beda” (Trespass Trio) e “By Way of Deception” (Angles 8) são ambos projectos de narrativa musical, debruçando-se sobre as injustiças e insanidades do mundo actual.
Küchen tem já uma notável experiência como compositor de música programática destinada ao cinema, à dança e ao teatro. Essa faceta surge igualmente na sua actividade nas áreas do jazz e da improvisação livre – é notável a sua capacidade para nos contar histórias ou apresentar situações que conseguimos visualizar.
CF 251Em conjunto com o contrabaixista Per Zanussi e com o baterista/percussionista Raymond Strid, apresenta-nos um álbum verdadeiramente conceptual. Fala-nos “Bruder Beda” de Ernst Gerson, um soldado veterano condecorado na Primeira Guerra Mundial que entra num mosteiro católico e adopta o nome de Irmão Beda.
Quando sai do recolhimento religioso, em 1933, as suas raízes judaicas impedem-no de trabalhar na Alemanha, pelo que vai para a Áustria e aí abriga-se em outro convento, este de convicção protestante. Dois anos mais tarde é convidado a sair. Por decreto, a partir de 1939 obrigam-no a acrescentar um apelido ao seu nome, “Israel”.
Sem sucesso, escreve ao Führer com uma reclamação “arisches Blut”. Torna-se automaticamente num traidor, num cristão “não-ariano”, num pária. É feito prisioneiro e finalmente enviado para o campo de Theresienstadt, onde ajudou a formar uma congregação católica e terá sido obrigado a ensinar crianças não-arianas). Em 1944, mandam-no para Auschwitz. Não se sabe se sobreviveu ao extermínio, por haver indícios de outra pessoa com o mesmo nome.
Para reflectir e emocionar   Será surpreendente tal história no contexto do jazz? De facto, poucos artistas seriam capazes de colocar tanta exuberância, paixão e hiper-expressiva vitalidade em jogos musicais que nos fazem reflectir e emocionar com o relato. É, no entanto, algo de pessoalmente vivido por Küchen: o frade era seu tio.
Küchen usa, tanto no sax alto como no barítono, um som cru de uma intensidade, por vezes, dolorosa, ficando a secção rítmica com muito espaço para seu apoio, para solar e para desenvolver experimentações sonoras introvertidas. Zanussi é, claramente, uma âncora para o grupo e Strid move-se com destreza e minimalmente, sempre com um aguçado sentido tímbrico.
A música aqui tocada é, naturalmente, mais intimista do que com o projecto Angles, ainda que não necessariamente menos enérgica, dado o contagiante sentido de urgência. Uma faixa fundamenal é “Today is Better than Tomorrow”, uma composição de Küchen cuja melodia encerra uma tristeza plena de poesia.   Este é um álbum que nunca recorre à superficialidade, um álbum conquistado com inteligência, sofisticação e nuance, um trabalho ímpar profundamente emotivo e cativante.
CF256A gravação ao vivo dos Angles 8 foi realizada no Festival de Jazz de Ljubljana, surgindo na colecção Ljubljana Jazz Series da editora portuguesa, e constitui um passo mais na sua dedicação às grandes formações.
Antes desta ocasião a fórmula Angles tivera uma geometria pouco variável, sendo em geral o grupo integrado por Mattias Ståhl, Magnus Broo, Mats Äleklint, Kjell Nordeson e Johan Bertling. Assim foi em “Every Woman is a Tree”, dedicado às mulheres iraquianas, e “Epileptical West – Live In Coimbra”. Ambos verdadeiros gritos de protesto contra o estado das coisas no mundo em que vivemos.
Na configuração que se ouviu na Eslovénia, Goran Kajfes substituiu Broo no trompete e o sexteto virou octeto com a adição de Eirik Hegdal nos saxofones e de Alexander Zethson no piano. A música que esta pequena “big band” faz inspira-se na Liberation Music Orchestra e nos grandes ensembles de Charles Mingus. É uma música directa, feita com transparência e sinceridade, com efeito cinemático ou teatral e por vezes grande emotividade.
É uma música apaixonada, sugestiva e brilhante, que dá predominância ao colectivo através dos contributos das vozes individuais. Essas vozes fazem-se sentir sem restrição, mas sabiamente colocadas em coesão.
Apela-se explicitamente aos ritmos latinos e africanos e a composição inclui elementos da música popular e mesmo da fanfarra (Ayler haveria de ter gostado). Esta não é nenhuma forma esotérica de free jazz – é um grito à vida e um apelo com sentido à nossa memória auditiva.
http://www.jazz.pt/ponto-escuta/2013/04/06/historias-da-vida/

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