Monthly Archives: April 2013

Jazz.pt review by José Pessoa

Martin Küchen – Histórias da vida

Também se narra com sons e este saxofonista sueco é perito nisso. Ainda vão a tempo de ouvir os filmes áudio a que deu os títulos “Bruder Beda” e “By Way of Deception”. Já fazem parte da história do jazz europeu e são incontornáveis.

Trespass Trio – Bruder Beda (CF 251)
Angles 8 – By Way of Deception – Live in Ljubljana (CF 256)
Classificação: 4,5/5
Não terá sido por acaso que os novos títulos do Trespass Trio e dos Angles, desta vez em formato de octeto (são habitualmente seis os seus integrantes), saíram ao público em simultâneo. O saxofonista sueco Martin Küchen sabe bem o que faz, tem-nos vindo a encantar com a qualidade, a profundidade e a intensidade dos seus trabalhos, e gosta de fazer entradas em grande.   “Bruder Beda” (Trespass Trio) e “By Way of Deception” (Angles 8) são ambos projectos de narrativa musical, debruçando-se sobre as injustiças e insanidades do mundo actual.
Küchen tem já uma notável experiência como compositor de música programática destinada ao cinema, à dança e ao teatro. Essa faceta surge igualmente na sua actividade nas áreas do jazz e da improvisação livre – é notável a sua capacidade para nos contar histórias ou apresentar situações que conseguimos visualizar.
CF 251Em conjunto com o contrabaixista Per Zanussi e com o baterista/percussionista Raymond Strid, apresenta-nos um álbum verdadeiramente conceptual. Fala-nos “Bruder Beda” de Ernst Gerson, um soldado veterano condecorado na Primeira Guerra Mundial que entra num mosteiro católico e adopta o nome de Irmão Beda.
Quando sai do recolhimento religioso, em 1933, as suas raízes judaicas impedem-no de trabalhar na Alemanha, pelo que vai para a Áustria e aí abriga-se em outro convento, este de convicção protestante. Dois anos mais tarde é convidado a sair. Por decreto, a partir de 1939 obrigam-no a acrescentar um apelido ao seu nome, “Israel”.
Sem sucesso, escreve ao Führer com uma reclamação “arisches Blut”. Torna-se automaticamente num traidor, num cristão “não-ariano”, num pária. É feito prisioneiro e finalmente enviado para o campo de Theresienstadt, onde ajudou a formar uma congregação católica e terá sido obrigado a ensinar crianças não-arianas). Em 1944, mandam-no para Auschwitz. Não se sabe se sobreviveu ao extermínio, por haver indícios de outra pessoa com o mesmo nome.
Para reflectir e emocionar   Será surpreendente tal história no contexto do jazz? De facto, poucos artistas seriam capazes de colocar tanta exuberância, paixão e hiper-expressiva vitalidade em jogos musicais que nos fazem reflectir e emocionar com o relato. É, no entanto, algo de pessoalmente vivido por Küchen: o frade era seu tio.
Küchen usa, tanto no sax alto como no barítono, um som cru de uma intensidade, por vezes, dolorosa, ficando a secção rítmica com muito espaço para seu apoio, para solar e para desenvolver experimentações sonoras introvertidas. Zanussi é, claramente, uma âncora para o grupo e Strid move-se com destreza e minimalmente, sempre com um aguçado sentido tímbrico.
A música aqui tocada é, naturalmente, mais intimista do que com o projecto Angles, ainda que não necessariamente menos enérgica, dado o contagiante sentido de urgência. Uma faixa fundamenal é “Today is Better than Tomorrow”, uma composição de Küchen cuja melodia encerra uma tristeza plena de poesia.   Este é um álbum que nunca recorre à superficialidade, um álbum conquistado com inteligência, sofisticação e nuance, um trabalho ímpar profundamente emotivo e cativante.
CF256A gravação ao vivo dos Angles 8 foi realizada no Festival de Jazz de Ljubljana, surgindo na colecção Ljubljana Jazz Series da editora portuguesa, e constitui um passo mais na sua dedicação às grandes formações.
Antes desta ocasião a fórmula Angles tivera uma geometria pouco variável, sendo em geral o grupo integrado por Mattias Ståhl, Magnus Broo, Mats Äleklint, Kjell Nordeson e Johan Bertling. Assim foi em “Every Woman is a Tree”, dedicado às mulheres iraquianas, e “Epileptical West – Live In Coimbra”. Ambos verdadeiros gritos de protesto contra o estado das coisas no mundo em que vivemos.
Na configuração que se ouviu na Eslovénia, Goran Kajfes substituiu Broo no trompete e o sexteto virou octeto com a adição de Eirik Hegdal nos saxofones e de Alexander Zethson no piano. A música que esta pequena “big band” faz inspira-se na Liberation Music Orchestra e nos grandes ensembles de Charles Mingus. É uma música directa, feita com transparência e sinceridade, com efeito cinemático ou teatral e por vezes grande emotividade.
É uma música apaixonada, sugestiva e brilhante, que dá predominância ao colectivo através dos contributos das vozes individuais. Essas vozes fazem-se sentir sem restrição, mas sabiamente colocadas em coesão.
Apela-se explicitamente aos ritmos latinos e africanos e a composição inclui elementos da música popular e mesmo da fanfarra (Ayler haveria de ter gostado). Esta não é nenhuma forma esotérica de free jazz – é um grito à vida e um apelo com sentido à nossa memória auditiva.
http://www.jazz.pt/ponto-escuta/2013/04/06/historias-da-vida/

Jazzflits review by Herman te Loo

CF 266Eric Revis 11:11 – Parallax (CF 266)
Muzikanten die muzikaal opgroeiden in New Orleans houden altijd een bijzondere band met de jazztraditie. Zo ook bassist Eric Revis, die we vooral kennen van de groepen van Branford Marsalis. Op ‘Parallax’ komt hij met een All Star-kwartet van gelijkgestemde zielen. Pianist Jason Moran en drummer Nasheet Waits verkennen in The Bandwagon ook al een flink stuk jazzgeschiedenis, en saxofonist/klarinettist Ken Vandermark kent zijn klassiekers. Maar het viertal heeft ook een niet te stillen honger
naar vernieuwing en persoonlijke expressie. Al die elementen komen bij elkaar in een album dat flink wat verschillende kanten opschiet. Van de gestructureerde freejazz van ‘Hyperthral’ tot de vette blues van ‘Winin’ boy blues’ en van de kamermuziek van ‘Edgar’ (met subliem strijkwerk van de leider) tot de onontkoombare groove van ‘Split’. De groepsleden laten horen wat ze allemaal kunnen, en weten daarbinnen hun eigen stempel op het eindproduct te zetten. Of we nu een duidelijk beeld krijgen van Eric Revis als componist, blijft echter een twijfelpunt. Je kunt je namelijk ook in veelzijdigheid verliezen, ‘ePna rdaallta dxr’ etieg tg oebpe uren. Dat neemt niet weg dat er op de cd veel te genieten valt, want als keuzeheer heeft Revis wel een zeer gelukkige hand.
http://www.jazzflits.nl/jazzflits11.07.pdf

Downbeat review by Bob Gendron

CF 270

http://www.downbeat.com/digitaledition/2013/DB201305/single_page_view/71.html

Expresso review by João Santos

CF 268Kris Davis – Capricorn Climber (CF 268)
Na sua “Oxford History of Western Music”, Richard Taruskin recorre à metáfora do icebergue para aludir à informação que, perdida na voragem dos séculos, se vai desprendendo da superfície, afundando-se pelas profundezas rumo ao esquecimento. Uma prática por si referida é a dos tratados de instrução técnico-musical, que indicavam aos instrumentistas como adornar melodias, bordar sequências de acordes, matizar tons, acentuar dinâmicas, introduzir variações, ou seja, interpretar tudo o que as partituras raramente preservam. Taruskin não o diz, mas, na literatura, foi Hemingway que postulou uma ‘teoria do icebergue’ para delinear o processo que permite que os factos concretos flutuem acima da linha de água enquanto a sua simbólica infraestrutura se edifica longe da vista. Entre um autor e outro, é de improvisação – como um princípio que ilude qualquer categorização dogmática – que se fala. E a pianista Kris Davis, neste sétimo disco da Clean Feed com a sua marca – contando com o quarteto RIDD, o trio SKM, o grupo Paradoxical Frog e “Novela”, o álbum de Tony Malaby que orquestrou –, nunca esteve tão próxima de ilustrar estas ideias. Numa invulgar combinação – acompanhada por Mat Maneri na violeta, Trevor Dunn ao contrabaixo e pelo casal Ingrid Laubrock, em saxofone tenor, e Tom Rainey, à bateria – cada uma das suas peças, tão geométrica e matematicamente concebidas quão etérea e hesitantemente esboçadas, navega entre o que se compreende e o que apenas se pressente, num espaço de invenção ora evidente, ora submerso, retalhado por uma sinuosidade linguística e por um discurso vacilante e solipsista, mas também por um assertivo fluxo de intenções e um sistemático jorro de valência coloquial. Parte “Viola in My Life”, se Morton Feldman a tivesse criado para quinteto de jazz, parte, lá está, a comunhão com o desconhecido.

New York Times review by Nate Chinen

CF 268INGRID LAUBROCK ANTI-HOUSE – Strong Place (Intakt)
KRIS DAVIS – Capricorn Climber (CF 268)

Ingrid Laubrock, a saxophonist, and Kris Davis, a pianist, share an aesthetic of unsettled calm and unhurried revelation. With the drummer Tyshawn Sorey they make up Paradoxical Frog, a trio that can make free improvisation feel structurally inevitable, like the logical conclusion to a far-reaching argument.

With their own bands Ms. Laubrock and Ms. Davis favor a slightly more careful arrangement of ideas, and compositions with discrete parameters. They both like chamber-group dynamics but shot through with rough texture and a vigilant avoidance of sentimentality. That they appear on each others’ new albums is no surprise. It confirms that their interaction is adaptable as well as sturdy and suggests that they haven’t begun to exhaust its potential.

Both albums — Ms. Laubrock’s “Strong Place,” released in January, and Ms. Davis’s “Capricorn Climber,” due out on March 18 — feature quintets driven by the alert and sinewy drumming of Tom Rainey, who happens to be Ms. Laubrock’s husband. Each album also includes a resident mischief maker with a melodic instrument. On “Strong Place” it’s the guitarist Mary Halvorson, and on “Capricorn Climber” it’s the violist Mat Maneri. On both albums it’s the second track, more than the first, that pulls you in.

The second track on “Strong Place” is “Der Deichgraf,” its title a nod to Ms. Laubrock’s German origins. The piece opens with a stern rumble of pianism before the ensemble gives halting chase, and then tapers off into balladic terrain without relaxing its intensity. (At one point the rhythm drops away to leave only Ms. Laubrock, circular-breathing a single note, and Ms. Halvorson, playing a wobbled-pitch version of the same.)

Ms. Laubrock’s band, Anti-House — which appears on Tuesday night at Cornelia Street Café, before embarking on a European tour — has an insistent rhythmic footprint. One track here, “From Farm Girl to Fabulous Vol. 1,” pushes the idea almost to the point of irritation, with a strobelike repetition assigned to piano and guitar.

But the ensemble, anchored by the bassist John Hébert, also has a way with drift and flow. “Cup in a Teastorm (for Henry Threadgill)” features Ms. Laubrock’s focused meanderings over a garden of exotic chords outlined by bass and guitar. “Alley Zen” revolves around a swirl of arpeggios played, with lovely impassivity, by Ms. Davis.

The second track on “Capricorn Climber” is “Pass the Magic Hat,” which begins with a fluid piano solo over an amorphously syncopated groove. Gradually Ms. Laubrock enters the picture, and into sync with a melody that briefly surges before its ebb. What follows is a solo by Mr. Maneri, slipping through the cracks between tempered pitch. The entire track is an engrossing lesson in ensemble flux, carried out with finesse.

A similar energy spills into the next track, “Trevor’s Luffa Complex,” named after the band’s bassist, Trevor Dunn, and featuring an initial melody played on glockenspiel. Several other tracks begin in hazy but thoughtful quietude, only gradually picking up heat and speed. The quieter moments aren’t necessarily more placid, since Ms. Davis is wizardly with tension. And like Ms. Laubrock, who also does some serious work on this album, she’s comfortable leaving an open-ended impression.
http://www.nytimes.com/2013/03/05/arts/music/albums-by-kris-davis-and-ingrid-laubrock.html?pagewanted=all&_r=0

All About Jazz review by Glenn Astarita

CF 268Kris Davis – Capricorn Climber (CF 268)
Relocating from her native Canada to New York City, pianist Kris Davis has infused her imposing talents into New York City’s unconventional, downtown-like scene. She once again aligns her compositional and improvisation expertise with like-minded artists, who frequently transition the jazz idiom into a boundless vista. Hence, the album projects a topsy-turvy and rather oscillating aura, featuring the musicians’ use of counterpoint, space, and emphatic exchanges. They mix it up, while also stretching themes to the hilt amid several introspective interludes that intimate a time warp of sorts.

“Big Band Ball” commences as a spooky foray, perhaps hinting at encounters from ungodly influences. Here, Davis locks in with violaist Mat Maneri and bassist Trevor Dunn’s rhythmic plucking that conjures emotive responses and opens the floodgates for drummer Tom Rainey’s lyrical rim-shots and asymmetrical tom hits. Imagery of a revolving panorama comes to fruition, heightened by saxophonist Ingrid Laubrock’s yearning lines via a loose groove, implanted with a multipart structural component. With snappy backbeats and Davis’ animated voicings, the band merges a whimsical scenario with exploratory dialogues.

Davis’ significant compositional skills are evident throughout. Moreover, she leaves quite a bit of room for invention, yet sustains a semi-structured game plan that recurrently shuns the norm, even when discussing the freer realm of jazz.
http://www.allaboutjazz.com/php/article.php?id=44214

All About Jazz review by Mark Corroto

CFG 006Various – I Never Meta Guitar Too (CFG 006)
Ladies and gentlemen, the current state of the guitar in modern creative music is sound. Pun aside, adventurous listeners are always searching for the next “new thing” in music. Thankfully here, guitarist Elliott Sharp acts, once again, as a musical prospector. His previous I Never Meta Guitar (Solo Guitars For The XXI Century) (Clean Feed, 2010) featured familiar players like Henry Kaiser, Brandon Ross, Jeff Parker, and Noel Akchoté, and introduced new superstars including Nels Cline, Mary Halvorson, and Raoul Bjorkenheim. He also included some overlooked talents.

Sharp returns here with sixteen new players—some familiar names and other revelations. These astute collections are guidebooks for the unfamiliar and hunters of the new.

He sprinkles the traditional sound of Ben Tyree’s classically influenced, acoustic “The Gatekeeper,” Steve Cardenas’ operatic acoustic sounds on “Aerial,” and Joel Harrison’s blues-tinged ghost music of “Loon,” alongside the slash and burn of Yasuhiro Isui’s “Headland” and Italian Downtown favorite Marco Cappelli’s “Sits At the Other Side Of The Table.”

Those unfamiliar with the extensive catalog of David Grubbs will find his “Weird Salutation” a meditative acoustic wandering, while Hans Tammen applies his guitar to a software program for some exceptionally curious music-making.

Each piece is an invitation to expand one’s ears in any direction deemed desirable.

Let the journey begin.
http://www.allaboutjazz.com/php/article.php?id=44260

The New York City Jazz Record review by David R. Adler

CF 266Eric Revis 11:11 – Parallax (CF 266)
Bassist Eric Revis, with his immense tone and supple sense of swing, has helped define the sound of the Branford Marsalis Quartet for over 15 years. As a leader, he’s taken an eclectic approach, starting from acoustic jazz but adding electric guitar, strings and other textures. In recent years he has embraced a freer concept, working with the likes of Peter Brötzmann, Avram Fefer and Michael Marcus. Parallax, with Ken Vandermark (tenor saxophone and clarinet), Jason Moran (piano) and Nasheet Waits (drums), leans strongly in that direction as well. (It’s pertinent that Revis, Waits and Parallax co-producer Orrin Evans are the core of the free-leaning ensemble Tar Baby.) Revis is featured on three solo tracks: the opening “Prelusion”, with frenetic bowing; “Percival”, a tight pizzicato miniature (the title is Cecil Taylor’s middle name) and the finale/title track, rich in somber overtones and washes of sound. But the main focus is the band, switching up from red-blooded ferocity (“Hyperthral”, Vandermark’s “Split”) to a subtler chamber-like aesthetic (“MXR”, “Celestial Hobo”). As much as Parallax is ‘free’, it’s also strongly compositional: Revis’ “Edgar”, a nod to fellow bassist Edgar Meyer, stands out for its repeating double-stop arco pattern and contrapuntal piano-clarinet theme emerging from chaos. “Dark Net”, an ensemble theme of daunting complexity – and no solos at all – is by Clean Feed label mate Michaël Attias (a fine move to highlight work by an underrated composer and peer).
Many don’t realize, but avant garde jazz operates from a position of deepest respect for the tradition. For Revis and certainly for Moran’s own work, the enthusiasm stretches back well before bebop. Their reading of Fats Waller’s “I’m Going to Sit Right Down and Write Myself a Letter” begins with the melody almost exactly as written, but against a backdrop of wild sonic abstraction. Jelly Roll Morton’s “Winin’ Boy Blues” acquires a slow, booming beat true to Morton’s own accurate description of the song: “smutty”.