Monthly Archives: April 2013

Jazz.pt review by João Moço

CF 263Ingebrigt Haker Flaten New York Quartet – Now Is (CF 263)
Existem ideias musicais que, quando condensadas num curto período de tempo, ganham mais impacto emocional do que se fossem prolongadas o máximo possível. Daí que não saibam a pouco estes 39 minutos de improviso de Ingebrigt Haker Flaten com verdadeiros gigantes como Joe McPhee, Joe Morris e Nate Wooley.   A música que aqui se ouve vive de uma enorme riqueza harmónica, de uma sabedoria enorme sobre como chegar a uma abordagem próxima dos blues. Saber improvisar sem cair nos clichés do experimentalismo não é para todos. Mas Flaten, McPhee, Morris e Wooley sabem como poucos.
http://www.jazz.pt/ponto-escuta/2013/04/06/ingebrigt-haker-flaten-new-york-quartet-now-clean-feed/

Advertisements

Jazz.pt review by José Pessoa

CF 257Igor Lumpert Trio – Innertextures Live (CF 257)
Classificação: 4,5/5
Este disco registado pela Clean Feed na edição de 2011 do Festival de Jazz de Ljubljana segue-se a uma primeira investida do projecto Innertextures de Igor Lumpert, publicada em 2001 pela Goga Music com as colaborações de Robert Glasper, Boris Kozlov, Leron Thomas, Jacob Bro e Jonathan Blake.
O jovem saxofonista e compositor Igor Lumpert nasceu em Novo Mesto, na Eslovénia. Fez a sua formação musical no Conservatório Bruckner, em Linz, na Áustria. Durante esse período tocou no grupo alemão Sidewinders, baseado em Munique. Depois, foi convidado a estudar na New School de Nova Iorque pelo contrabaixista Reggie Workman, para onde foi no Outono de 2000 com uma bolsa de estudos. Na Big Apple estudou e tocou com George Garzone, Chico Hamilton, Billy Harper e muitos outros.
A música de Lumpert representa uma fusão única de jazz, funk, ritmos do Leste europeu e esboços neo-bop. Tocou já com várias lendas do jazz, incluindo John Abercrombie, Sonny Simmons, Boris Kozlov, e Andy McKee. Neste álbum encontramo-lo na companhia de Nasheet Waits e Christopher Tordinijem. Waits é um baterista enérgico e de grande densidade, sempre procurando uma divergência com os restantes músicos, construída em torno de “loops” rítmicos e pela criação de camadas multidimensionais. Tordinijem pratica um baixo melodicamente coerente e articulado, pleno de nuances e frequente inspirador de um “groove” forte que nos faz bater o pé, ligando-se maravilhosamente à percussão de Waits.
Em duas palavras dizemos tudo o que aqui realizam: sofisticação e eficiência.
O que faz a música deste projecto tão interessante é a sua complexidade. Com o jogo e a fluidez evidenciados nestas peças, o trio transmite-nos uma ideia consequente de absorção das tradições do jazz, acrescentando algo de novo e ímpar. Esta é uma música criada democraticamente, permitindo ao ouvinte abandonar-se à fruição total ou a uma focagem clara sobre algum dos trabalhos individuais. As faixas de que mais gosto são a balanceada, mas exigente, “Still Dreamimg” e a subtil e poética “This is for Billie Holliday”.
http://www.jazz.pt/ponto-escuta/2013/04/12/igor-lumpert-trio-innertextures-live-clean-feed/

Jazz.pt review by Antonio Branco

CF 268Kris Davis – Capricorn Climber (CF 268)
Classificação: 4/5
A pianista e compositora Kris Davis (nascida em Vancouver e residente em Brooklyn) tem vindo a conquistar nos últimos anos um lugar entre o escol do jazz e da música improvisada de feição mais aventurosa do panorama nova-iorquino. Sexto disco na condição de líder (sétimo a ostentar o seu nome no catálogo da Clean Feed), “Capricorn Climber” consolida-a igualmente como um dos nomes de proa do selo lisboeta.   Depois do RIDD Quartet, do trio SKM, de dois discos com o seu trio Paradoxical Frog, de “Novela” de Tony Malaby (em que também assinou os arranjos) e do excelente registo a solo, “Aeriol Piano”, Davis apresenta o primeiro disco do seu quinteto, no qual surge acompanhada por improvisadores de primeira água, com quem estabelece empáticas relações: a saxofonista Ingrid Laubrock e o baterista Tom Rainey (habituais colaboradores próximos) e ainda pelo violetista Mat Maneri e pelo contrabaixista Trevor Dunn.   Após uma saudada apresentação em regime de improvisação total no Barbès, clube de Brooklyn, Davis inspirou-se para escrever música para esta formação. Em “Capricorn Climber” volta a exibir os traços fundamentais que caracterizam a sua escrita, aliando distintamente uma capacidade de interligar elementos que vão da tradição do jazz a técnicas vanguardistas.   A sua abordagem geométrica assenta numa rigorosa gestão do espaço e das várias camadas sónicas, das tensões e dos contrastes, dos timbres e das intensidades. De facto, muitas das composições afiguram-se-nos como se de peças improvisadas se tratasse, o que confere à música que aqui se escuta uma frescura e uma espontaneidade notáveis, potenciadas pelo elevado nível das interações (as entre Maneri e Laubrock, em uníssono ou confronto, são particularmente relevantes).   A maioria das peças incluídas remete-nos para ambiências tranquilas e de grande contenção instrumental, à maneira de um certo jazz de recorte camerístico. Mesmo quando os músicos se afastam dessa postura (o que até acontece amiúde), há sempre a intenção de a ela voltar, qual porto de abrigo a que se almeja regressar depois da tormenta.   Nota de realce para “Trevor´s Luffa Complex”, introduzida pelo próprio e com um incandescente solo de Laubrock, “Pass the Magic Hat”, peça que contém algumas das referências mais enquadradas no cânone jazzístico, e para esse verdadeiro “tour-de-force” que é a peça título, com a sua inicial atmosfera soturna (graças à líder e a Maneri) e o desenvolvimento em crescendo.   “Capricorn Climber” é uma nova roda dentada numa engrenagem que marca decisivamente o jazz mais exigente dos dias que correm.
http://www.jazz.pt/ponto-escuta/2013/04/23/kris-davis-capricorn-climber-clean-feed/

Jazz.pt review by José Pessoa

Martin Küchen – Histórias da vida

Também se narra com sons e este saxofonista sueco é perito nisso. Ainda vão a tempo de ouvir os filmes áudio a que deu os títulos “Bruder Beda” e “By Way of Deception”. Já fazem parte da história do jazz europeu e são incontornáveis.

Trespass Trio – Bruder Beda (CF 251)
Angles 8 – By Way of Deception – Live in Ljubljana (CF 256)
Classificação: 4,5/5
Não terá sido por acaso que os novos títulos do Trespass Trio e dos Angles, desta vez em formato de octeto (são habitualmente seis os seus integrantes), saíram ao público em simultâneo. O saxofonista sueco Martin Küchen sabe bem o que faz, tem-nos vindo a encantar com a qualidade, a profundidade e a intensidade dos seus trabalhos, e gosta de fazer entradas em grande.   “Bruder Beda” (Trespass Trio) e “By Way of Deception” (Angles 8) são ambos projectos de narrativa musical, debruçando-se sobre as injustiças e insanidades do mundo actual.
Küchen tem já uma notável experiência como compositor de música programática destinada ao cinema, à dança e ao teatro. Essa faceta surge igualmente na sua actividade nas áreas do jazz e da improvisação livre – é notável a sua capacidade para nos contar histórias ou apresentar situações que conseguimos visualizar.
CF 251Em conjunto com o contrabaixista Per Zanussi e com o baterista/percussionista Raymond Strid, apresenta-nos um álbum verdadeiramente conceptual. Fala-nos “Bruder Beda” de Ernst Gerson, um soldado veterano condecorado na Primeira Guerra Mundial que entra num mosteiro católico e adopta o nome de Irmão Beda.
Quando sai do recolhimento religioso, em 1933, as suas raízes judaicas impedem-no de trabalhar na Alemanha, pelo que vai para a Áustria e aí abriga-se em outro convento, este de convicção protestante. Dois anos mais tarde é convidado a sair. Por decreto, a partir de 1939 obrigam-no a acrescentar um apelido ao seu nome, “Israel”.
Sem sucesso, escreve ao Führer com uma reclamação “arisches Blut”. Torna-se automaticamente num traidor, num cristão “não-ariano”, num pária. É feito prisioneiro e finalmente enviado para o campo de Theresienstadt, onde ajudou a formar uma congregação católica e terá sido obrigado a ensinar crianças não-arianas). Em 1944, mandam-no para Auschwitz. Não se sabe se sobreviveu ao extermínio, por haver indícios de outra pessoa com o mesmo nome.
Para reflectir e emocionar   Será surpreendente tal história no contexto do jazz? De facto, poucos artistas seriam capazes de colocar tanta exuberância, paixão e hiper-expressiva vitalidade em jogos musicais que nos fazem reflectir e emocionar com o relato. É, no entanto, algo de pessoalmente vivido por Küchen: o frade era seu tio.
Küchen usa, tanto no sax alto como no barítono, um som cru de uma intensidade, por vezes, dolorosa, ficando a secção rítmica com muito espaço para seu apoio, para solar e para desenvolver experimentações sonoras introvertidas. Zanussi é, claramente, uma âncora para o grupo e Strid move-se com destreza e minimalmente, sempre com um aguçado sentido tímbrico.
A música aqui tocada é, naturalmente, mais intimista do que com o projecto Angles, ainda que não necessariamente menos enérgica, dado o contagiante sentido de urgência. Uma faixa fundamenal é “Today is Better than Tomorrow”, uma composição de Küchen cuja melodia encerra uma tristeza plena de poesia.   Este é um álbum que nunca recorre à superficialidade, um álbum conquistado com inteligência, sofisticação e nuance, um trabalho ímpar profundamente emotivo e cativante.
CF256A gravação ao vivo dos Angles 8 foi realizada no Festival de Jazz de Ljubljana, surgindo na colecção Ljubljana Jazz Series da editora portuguesa, e constitui um passo mais na sua dedicação às grandes formações.
Antes desta ocasião a fórmula Angles tivera uma geometria pouco variável, sendo em geral o grupo integrado por Mattias Ståhl, Magnus Broo, Mats Äleklint, Kjell Nordeson e Johan Bertling. Assim foi em “Every Woman is a Tree”, dedicado às mulheres iraquianas, e “Epileptical West – Live In Coimbra”. Ambos verdadeiros gritos de protesto contra o estado das coisas no mundo em que vivemos.
Na configuração que se ouviu na Eslovénia, Goran Kajfes substituiu Broo no trompete e o sexteto virou octeto com a adição de Eirik Hegdal nos saxofones e de Alexander Zethson no piano. A música que esta pequena “big band” faz inspira-se na Liberation Music Orchestra e nos grandes ensembles de Charles Mingus. É uma música directa, feita com transparência e sinceridade, com efeito cinemático ou teatral e por vezes grande emotividade.
É uma música apaixonada, sugestiva e brilhante, que dá predominância ao colectivo através dos contributos das vozes individuais. Essas vozes fazem-se sentir sem restrição, mas sabiamente colocadas em coesão.
Apela-se explicitamente aos ritmos latinos e africanos e a composição inclui elementos da música popular e mesmo da fanfarra (Ayler haveria de ter gostado). Esta não é nenhuma forma esotérica de free jazz – é um grito à vida e um apelo com sentido à nossa memória auditiva.
http://www.jazz.pt/ponto-escuta/2013/04/06/historias-da-vida/

Jazzflits review by Herman te Loo

CF 266Eric Revis 11:11 – Parallax (CF 266)
Muzikanten die muzikaal opgroeiden in New Orleans houden altijd een bijzondere band met de jazztraditie. Zo ook bassist Eric Revis, die we vooral kennen van de groepen van Branford Marsalis. Op ‘Parallax’ komt hij met een All Star-kwartet van gelijkgestemde zielen. Pianist Jason Moran en drummer Nasheet Waits verkennen in The Bandwagon ook al een flink stuk jazzgeschiedenis, en saxofonist/klarinettist Ken Vandermark kent zijn klassiekers. Maar het viertal heeft ook een niet te stillen honger
naar vernieuwing en persoonlijke expressie. Al die elementen komen bij elkaar in een album dat flink wat verschillende kanten opschiet. Van de gestructureerde freejazz van ‘Hyperthral’ tot de vette blues van ‘Winin’ boy blues’ en van de kamermuziek van ‘Edgar’ (met subliem strijkwerk van de leider) tot de onontkoombare groove van ‘Split’. De groepsleden laten horen wat ze allemaal kunnen, en weten daarbinnen hun eigen stempel op het eindproduct te zetten. Of we nu een duidelijk beeld krijgen van Eric Revis als componist, blijft echter een twijfelpunt. Je kunt je namelijk ook in veelzijdigheid verliezen, ‘ePna rdaallta dxr’ etieg tg oebpe uren. Dat neemt niet weg dat er op de cd veel te genieten valt, want als keuzeheer heeft Revis wel een zeer gelukkige hand.
http://www.jazzflits.nl/jazzflits11.07.pdf

Downbeat review by Bob Gendron

CF 270

http://www.downbeat.com/digitaledition/2013/DB201305/single_page_view/71.html

Expresso review by João Santos

CF 268Kris Davis – Capricorn Climber (CF 268)
Na sua “Oxford History of Western Music”, Richard Taruskin recorre à metáfora do icebergue para aludir à informação que, perdida na voragem dos séculos, se vai desprendendo da superfície, afundando-se pelas profundezas rumo ao esquecimento. Uma prática por si referida é a dos tratados de instrução técnico-musical, que indicavam aos instrumentistas como adornar melodias, bordar sequências de acordes, matizar tons, acentuar dinâmicas, introduzir variações, ou seja, interpretar tudo o que as partituras raramente preservam. Taruskin não o diz, mas, na literatura, foi Hemingway que postulou uma ‘teoria do icebergue’ para delinear o processo que permite que os factos concretos flutuem acima da linha de água enquanto a sua simbólica infraestrutura se edifica longe da vista. Entre um autor e outro, é de improvisação – como um princípio que ilude qualquer categorização dogmática – que se fala. E a pianista Kris Davis, neste sétimo disco da Clean Feed com a sua marca – contando com o quarteto RIDD, o trio SKM, o grupo Paradoxical Frog e “Novela”, o álbum de Tony Malaby que orquestrou –, nunca esteve tão próxima de ilustrar estas ideias. Numa invulgar combinação – acompanhada por Mat Maneri na violeta, Trevor Dunn ao contrabaixo e pelo casal Ingrid Laubrock, em saxofone tenor, e Tom Rainey, à bateria – cada uma das suas peças, tão geométrica e matematicamente concebidas quão etérea e hesitantemente esboçadas, navega entre o que se compreende e o que apenas se pressente, num espaço de invenção ora evidente, ora submerso, retalhado por uma sinuosidade linguística e por um discurso vacilante e solipsista, mas também por um assertivo fluxo de intenções e um sistemático jorro de valência coloquial. Parte “Viola in My Life”, se Morton Feldman a tivesse criado para quinteto de jazz, parte, lá está, a comunhão com o desconhecido.