Jazz.pt review by António Branco

CF 275Lama & Chris Speed – Lamaçal (CF 275)
Rating: 4/5
A síndrome do segundo disco é um problema que, sabemo-lo, afeta muitos projetos. Criadas expetativas na estreia, as mesmas, tantas vezes, não conhecem continuidade, ditando o esquecimento. O inverso acontece, porém, com o trio – baseado em Roterdão – formado pelos portugueses Susana Santos Silva e Gonçalo Almeida e pelo canadiano Greg Smith. Aliados ao experiente saxofonista e clarinetista norte-americano Chris Speed, não só confirmam como ampliam neste segundo registo as virtudes expostas na estreia, há dois anos, com o excelente “Oneiros”.

“Lamaçal” concretiza uma parceria que se revela muito conseguida e com a qual, de facto, a formação expande consideravelmente o espetro de soluções disponíveis, dando notáveis passos em frente.   Gravado ao vivo na 10.ª edição do Portalegre Jazz Fest, em 2012, o novo disco volta a revelar movimentações de miscigenação entre elementos de vários domínios das músicas criativas, apostando como elemento essencial das suas construções sonoras numa criteriosa utilização de “loops” e efeitos eletrónicos, que se fundem de forma natural e inteligente com os instrumentos acústicos.   Apesar de Gonçalo Almeida se assumir como principal compositor, todos os restantes músicos também assinam peças concetualmente dominadas pelo imaginário ligado ao mar e a idiossincráticas criaturas que nele habitam (a exceção será o festivo “Pair of Dice”, original de Speed).

“Overture for A Wandering Fish” (da autoria da trompetista) abre em tom solene, escutando-se ruminações vindas das profundezas, seja via sopros ou contrabaixo processado. A peça que dá título ao disco exibe vivos diálogos entre o trompete e o clarinete (depois saxofone tenor), assentes na efervescência controlada da secção rítmica.

Introduzida por sons que evocam os emitidos pelos cetáceos (linguagem estruturada que o Homem praticamente desconhece), a bela melodia de “Moby Dick” revisita a personagem central do revolucionário romance de Herman Melville, com Almeida desenvolvendo graciosas figuras e Smith laborando com minúcia.

“Cachalote”, de Smith, é introduzida por este, seguindo-se uma altiva intervenção de Speed em tenor, que desemboca em vigorosos uníssonos. O tom enérgico desvanece-se e tudo termina serenamente. “Anémona” constrói-se em torno de um belo ostinato de contrabaixo e a melodia hipnotizante de “Manta” transporta o ouvinte para a tranquilidade silenciosa dos fundos abissais.

Uma excelente proposta que reforça o superlativo interesse deste projeto.
http://www.jazz.pt/ponto-escuta/2013/05/08/lama-chris-speed-lamacal-clean-feed/

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