Jazz.pt review by Antonio Branco

CF 281Susana Santos Silva / Torbjörn Zetterberg – Almost Tomorrow (CF 281)
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Uma das características que mais têm contribuído para a relevância global da Clean Feed é a aposta em projetos novos e desafiantes, integrando músicos consagrados e outros ainda em fase de ascensão. De facto, no catálogo do selo lisboeta coabitam registos de formações estabelecidas com outros resultantes de colaborações pouco ou nada expetáveis, até pela distância geográfica (apesar de tendencialmente eliminada pela tecnologia).

Tudo isto decorre de um conhecimento profundo dos músicos – dos seus desejos e da sua abertura a novas experiências – e de uma sensibilidade especial dos seus responsáveis na busca de parcerias criativas.   Esta consistente política editorial deu mais um fruto em “Almost Tomorrow”, disco que junta a trompetista portuense Susana Santos Silva ao contrabaixista Torbjörn Zetterberg. A par do seu trabalho enquanto trompetista da Orquestra Jazz de Matosinhos e com o seu próprio quinteto – mais filiados na linguagem do jazz –, Santos Silva tem vindo a empreender sucessivas aproximações a universos tendencialmente não-idiomáticos (Lama) e agora vai mais longe do que alguma vez fora nos domínios da música improvisada.

Zetterberg é um dos mais relevantes contrabaixistas suecos, avultando o trabalho com o seu Hot Five e colaborações como as que vem mantendo com os saxofonistas Jonas Kullhammar, Alberto Pinton e Fredrik Nordström. Mas também ele tem encurtado distâncias em relação à improvisação pura, como é o caso da abordagem que exibe no excelente “Soulstorm” (Clean Feed, 2010), ao lado de Ivo Perelman e Daniel Levin.

Em “Almost Tomorrow” os dois músicos mostram como os glóbulos da experimentação lhes correm nas artérias. Aventurando-se em domínios novos, Santos Silva e Zetterberg desenvolvem uma comunicação íntima entre trompete e contrabaixo, ampliando sobremaneira os respetivos vocabulários, numa matriz claramente europeia.

Entregam-se mutuamente a jogos de exploração e descoberta das potencialidades criativas do formato (ainda assim não muito habitual) e dos seus próprios instrumentos, manipulando-os de forma pouco convencional (“Flocos de Mel”, “Head Distortion Machine”).

Instrumentista virtuoso, Zetterberg é exímio tanto no pizzicato como na utilização do arco. As interações assumem, por vezes, um lado melódico mais explícito, como atesta a serenidade que brota de “Nötskalsmusik #6”, “Cow Safari” e “Columbus Arrival in Här jedalen”

O trompete da portuguesa por vezes contrasta em rugosidade (“Knights of Storvålen”, “Falling and Falling and Falling”), mas vem sempre ao de cima a clareza da sonoridade, a definição das linhas e das texturas. Interessante notar a forma como a sua sonoridade se parece relacionar, a espaços, com a do trompetista sueco Magnus Broo.

Nesta primeira aventura em parceria, ambos os músicos logram um decisivo salto em frente, revelando maturidade e propósitos claros em alargar horizontes. Roguemos a Cronos para que o amanhã chegue depressa.
http://www.jazz.pt/ponto-escuta/2013/08/17/susana-santos-silva-torbjorn-zetterberg-almost-tomorrow-clean-feed/

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