Jazz.pt review by Nuno Catarino

CF 278Joe McPhee – Sonic Elements (CF 278)
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Visitante regular do nosso país, Joe McPhee tem-se apresentado com diversas formações. Tocou em Lisboa, Porto e Coimbra e chegou até a colaborar com músicos nacionais (integrou um quarteto liderado por Rodrigo Amado, que actuou no Centro Cultural de Belém).

Contudo, o momento mais especial da ligação de McPhee com Portugal terá sido o concerto que deu no Museu Machado de Castro, em Coimbra. Integrada no festival Jazz ao Centro 2009, essa prestação não só mostrou a versatilidade instrumental do multi-instrumentista americano, como a capacidade emotiva da sua música. Aquele solo absoluto foi uma experiência quase religiosa, quase transcendente.

Ora, é a solo que McPhee surge neste disco, registo de um concerto incluído na edição de 2012 do Festival de Jazz de Ljubliana. A actuação divide-se em duas partes (ou “episódios”), cada uma delas dedicada a um herói pessoal do músico (ele próprio uma lenda viva para as gerações contemporâneas). A primeira metade do disco é um tributo a Don Cherry e nela McPhee utiliza o mesmo instrumento que tinha as preferências de Cherry, o trompete de bolso.

O CD começa com uma toada quase silenciosa, com McPhee a explorar o seu “pocket” de forma quase subliminar, num sopro ténue e contido. Mais à frente passa a explorar efeitos, servindo-se, sobretudo, da voz processada pelo metal. Quase sempre textural e atmosférica, esta música encontra paralelo em alguns trabalhos do próprio homenageado. Esta primeira parte do disco engloba dois elementos, “Wind” e “Water” (a explicação do título).

A segunda metade é dedicada a Ornette Coleman, com uma substituição do trompete para o saxofone alto. Joe McPhee começa com um discurso ondulante, evocativo de Ornette, embora evolua livremente, transformando-se. Há uma rápida mudança de ambiente e ficamos perante uma toada mais lenta e de assumido carácter melódico, que se traduz numa abordagem emotiva – quase que se imagina Albert Ayler.

Menos textural que a primeira metade, esta segunda assenta mais no tonalismo improvisado de McPhee, que aqui disserta sobre outros dois elementos – “Earth” e “Fire” – e ainda repesca um antigo tema. Chega-se a incluir até algum “groove”, encerrando o disco com um regresso à emoção ayleriana, agora de forma mais trémula. Essa melodia sentimental, evocada em dois momentos diferentes, vem desse referido tema, “Old Eyes”.

McPhee continua a exibir a sua profunda vitalidade musical, colaborando com projectos enérgicos de músicos mais jovens, como The Thing e, mais recentemente, o nórdico Trespass Trio (também recomendável). A solo, relembra-nos as suas enormes imaginação e capacidade criativa. Esta gravação serve, assim, para voltarmos a celebrar a sua dimensão e contínua relevância, como figura tutelar do jazz criativo contemporâneo.
http://www.jazz.pt/ponto-escuta/2013/08/29/joe-mcphee-sonic-elements-clean-feed/

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