Top Discos Portugueses 2013 by Bodyspace

TOP DISCOS PORTUGUESES 2013
Já não há mais formas de o dizer: a música portuguesa está de boa saúde e recomenda-se. Muito para além da obrigatoriedade por quotas nas rádios, para além da discussão inútil da língua utilizada para verbalizar palavras, mesmo para além dos grandes holofotes mediátios, a música portuguesa tem sabido crescer, diversificar-se, ganhar identidade, exportar-se, percorrer as agendas de festivais europeus, andar de peito cheio mundo fora. A música portuguesa tem cada vez menos vergonha na cara; e ainda bem. Como é habitual, somamos o total das nossas vontades e elegemos os dez melhores discos portugueses do ano. São os seguintes. André Gomes

10. JP SIMÕES (FNAC Cultura)
JP Simões é uma personagem singular e resistente do panorama musical português. Por isso, cada vez mais, é um privilégio poder assistir aos seus concertos-conversa e à edição de mais um disco em nome próprio. Roma, o disco, não é inocente, começando pelo título… Roma como capital de um império desagregado, de uma velha Europa. Por outro lado, amor… JP Simões embarca numa narrativa recheada de ironia e sarcasmo, que coloca o povo português ao espelho. Ensina-nos a rirmo-nos de nós próprios, num Portugal desgraçado, “Rio-me”… “Rio-me de Janeiro”. Cruzamento do Atlântico que nunca é, nunca foi esquecido pelo músico, já que o disco vive desse diálogo permanente entre o fado e a música popular portuguesa, entre o jazz e a música popular brasileira, entre a valsa e o samba. Indubitavelmente o registo mais eclético: larga-se o formato cantautor, guitarra e voz, para uma sonoridade colectiva com direito, até, a coros e, quiçá, a dança. Saibamos reconhecer. Alexandra João Martins

9. IGUANAS (Cafetra Records)
Doce ao invés de nos dar na primeira audição algum jorrilho de clichés sonoros em torno das gracinhas dos títulos onde há “Kinky Lady” ou “Amo o Teu Rabo”, não, em boa hora evitam o caminho fácil de um funkzinho porno ou de um hip hop maroto, nem sequer mais Kimo Ameba (de onde são uma parte) há por aqui. Não há fuzz aqui, nem guitarras sujas de feedback. Aqui há batidas tão viciantes como inesperadas que urgem ser dançadas, entre camadas de uma absurda doçura etérea de melodias de pop electrónica, plenas de momentos cereja no topo do bolo que nos engorda a imaginação como uns The Russian Futurists perdidos na linha de Sintra. Rabos, gelados e “babes” em hinos estupefacientes para cyber(tardo)adolescentes e robots tarados, onde um diálogo de uma qualquer novela brasileira consegue tornar-se na canção de amor do ano. Nuno Leal

CF 2818. SUSANA SANTOS SILVA & TORBJORN ZETTERBERG (Clean Feed)
2013 foi o ano de Susana Santos Silva. A trompetista oriunda do Porto terá sido a figura mais presente do jazz português, estando envolvida em múltiplos projectos: com o seu trio Lama – e o convidado Chris Speed – editou Lamaçal (Clean Feed); em duo com Jorge Queijo gravou Songs from my Backyard (Wasser Bassin); integrada na Orquestra Jazz de Matosinhos participou no disco Bela Senão Sem (TOAP); desenvolveu um duo com a pianista Kaja Draksler; e continua a dinamizar a Associação Porta-Jazz. Mas foi em duo com o contrabaixista sueco Torbjorn Zetterberg que a trompetista editou o seu disco mais marcante, Almost Tomorrow. Combinando uma dimensão lírica com texturas rugosas, o trompete de Santos Silva estabeleceu um perfeito diálogo com o contrabaixo Zetterberg, numa parceria de sucesso abençoada pela improvisação. Nuno Catarino

7. CAPICUA (Edição Digital / Independente)
Com o single “Maria Capaz” já se suspeitava, com o álbum homónimo de 2012 já se percebia, mas 2013 confirmou de vez que Capicua é uma das grandes vozes autorais do Portugal de hoje. Fosse a reescrever e transformar “(A Casa da) Mariquinhas” num fado-rap para Gisela João, fosse a pegar em canções do álbum de estreia, despi-las à sua simplicidade acústica e demonstrar a solidez do seu esqueleto, ou ainda nos seis temas que compõem esta mixtape. Aqui serve-se de instrumentais de Kanye West e, com um toque do seu colaborador D-One, faz o que quer dessa matéria-prima. Demonstra uma versatilidade de registos, do mais combativo ao mais introspectivo, com uma capacidade microscópica para olhar para dentro de si e um olhar telescópico para o que a rodeia, sempre a primar por um malabarismo lírico. Capicua tem uma voz demasiado grande para se confinar a rótulos de sexo, idade, escolaridade ou proveniência. Esta merda é toda dela. Ana Patrícia Silva

6. TORTO (Lovers & Lollypops)
Já aqui o disse e nunca é demais reforçar: ao contrário de 90% da música instrumental que vinga no século XXI, os Torto não vivem de lugares comuns. A linguagem deles carrega o peso da emoção, mas não vive de crescendos, de caminhos rectilíneos em direcção ao clímax, nem de frases esculpidas a montanhas de distorção. Grande parte do disco vive até de um som calmo, limpo, em que bateria, baixo e guitarra tocam todas com um fim: o de dialogar. É neste diálogo, exposto e sentido, que encontramos a emoção. A coisa boa é que esta não é artificial nem provocada; é simplesmente natural e, bem vistas as coisas, dialoga também connosco. E sempre a dizer “está tudo bem, vai ficar tudo bem”. António Silva

5. NORBERTO LOBO & JOÃO LOBO (Mbari)
Para quem conhece Norberto Lobo apenas dos álbuns que precedem Mogul de Jade, a parceria com o baterista João do-mesmo-sobrenome-mas-é-mero-acaso poderá destoar ligeiramente. Porém, como se escreveu aqui no ano passado, há neste trabalho a quatro mãos indícios daquilo que já tinha sido deixado a descoberto na colaboração com Tigrala. É patente em Mogul de Jade uma suave vontade de libertação das canções – belíssimas todas elas – que Norberto Lobo tem vindo a oferecer ao seu público. O que gera um diferente tipo de beleza. O álbum contém os dois espíritos, mais em uníssono do que em dissonância, e acima de tudo maravilhosos pela sua subtileza. Continua a haver espaço para o que de mais familiar ficou do autor de Mudar de Bina em momentos como a brilhante “Musgo na Voz” (na qual a voz é do próprio) e a deslumbrante “Bragança” (com voz de Norberto, João, Crista Alfaiate e Mariana Ricardo). O reverso da moeda são os devaneios da “Canção do João” ou a breve inicial “Himmelstorm”. De notar, também, a distinta contenção da bateria ao longo de todo o disco. O equilíbrio encontrar-se-á na faixa que dá título ao álbum dedicado ao artista Michael Biberstein, tio de Norberto Lobo, autor das capas dos trabalhos anteriores e que morreu em Maio deste ano. Tiago Dias

4. OCTA PUSH (Senseless Records Portugal)
anda a precisar de muitas coisas. Uma delas era, sem sombra de dúvidas, um disco como Oito. Fresco, actual, vibrante, urgente. Uma volta ao mundo com vários cheiros, vários aromas, vários ritmos. Depois de um EP prometedor em 2010 (com selo da Optimus Discos), Oito cumpre tudo aquilo que se esperava dos Octa Push – e ainda mais. E de uma forma imprevisível; o kuduro já é só coisa do passado e o futuro é tudo o que interessa aos irmãos Dizzycutter e Mushug. A oferta é ampla e para todos os gostos; o menu de electrónicas é do mais variado que se possa imaginar e ainda há alguma coisa de África por aqui. Oito é, sem espaço para dúvidas, uma maravilha da modernidade portuguesa. Devíamos todos dar graças por termos uma dupla deste calibre a partilhar o mesmo espaço que nós. André Gome

3. THE GLOCKENWISE (Lovers & Lollypops)
Os putos perderam a cabeça e enconaram – pelo menos é isso que poderíamos pensar ao ouvir “Goodbye” e toda a sua ternura ao piano, ou ao constatar que o quarteto de Barcelos está cada vez mais pop na sua abordagem ao mundo mágico do rock n’ roll. Longe vão os tempos do Rock Sem Merdas, mas de qualquer das formas eles nunca precisaram de rótulos – nem os querem – para descarregar canções nos nossos ouvidos: Leeches contém em apenas vinte minutos algumas das melhores malhas que se fizeram por cá em 2013, embebidas num caldeirão punk rock e recauchutadas de forma a soarem o mais orelhudas possível (“Time To Go” e “Napoleon”, dois meros exemplos, ficam na cabeça durante dias e de lá não querem mais sair). Difícil segundo disco? Quem disse que isso era sempre assim? Paulo Cecílio

2. GISELA JOÃO (Valentim de Carvalho)
Ainda agora aqui chegou e já lhe tecem os maiores elogios e hipérboles imagináveis. Tudo com este disco, onde foi capaz de se afirmar sem escrever uma só palavra, apenas com aquilo que a sua voz, postura e interpretação são capazes de fazer. E a verdade é que este não é um fado qualquer. Veio de um sítio de onde o fado não costuma vir e conseguiu chegar a sítios onde o fado raramente chega. Gisela João nasceu em Barcelos, cresceu com o fado, os viras e os malhões, o techno e o trance. Longe dos estereótipos de fadista, soube construir uma voz e uma imagem com contaminações de influências díspares, mas com um carimbo só seu. E com isso conseguiu chegar aos ouvidos mais tradicionalistas mas também a pessoas que descartavam o fado por ser triste, antiquado ou aborrecido. Gisela João sabe pegar numa canção e dar-lhe a intensidade que ela merece, seja de vívida e alegre voz, com o peso da mágoa e da saudade, ou até de forma interventiva, com uma nova “(A Casa da) Mariquinhas” saída da caneta de Capicua. E é assustador pensar o quanto Gisela João poderá ainda crescer. Ana Patrícia Silva

1. ERMO (Optimus Discos)
Se o EP de estreia já augurava um futuro brilhante ao duo de Braga, Vem Por Aqui é apenas a confirmação de que António Costa e Bernardo Barbosa ocupam desde já um lugar muito especial na história da música que por cá se faz. Não só porque optaram por fugir ao cânone tradicional que dita que sem guitarras não se pode ter algo para dizer (um pouco como a história antiga de que bandas que não cantassem na língua-pátria não iriam nunca ter sucesso) como capturaram em meros vinte e sete minutos o zeitgeist da nação que perpetuamente sonha com o regresso de um qualquer encoberto que a retire da cova, impulsionados por amores literários e pelos cliques e paisagens de uma electrónica idiossincrática que gerou canções como “Pangloss”. Vamos por aqui, vamos. E para onde vamos? Que o futuro brilhante – o nosso, o deles – chegue depressa. Paulo Cecílio
http://bodyspace.net/artigos/239-top-discos-portugueses-2013/

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