Jazz.pt review by Nuno Catarino

CF 286Kaja Draksler – The Lives of Many Others (CF 286)
O nome de Kaja Draksler poderá ainda soar estranho para a maior parte dos apreciadores portugueses de jazz, mas a pianista já conseguiu estabelecer alguns laços com o nosso país. Gravou para a Clean Feed, actuou na Culturgest (no ciclo “Isto é jazz?”), em Lisboa, e trabalha em duo com a multifacetada trompetista portuense Susana Santos Silva.

De origem eslovena, mas radicada na Holanda, Kaja tem desenvolvido um percurso curioso: além de participar nos típicos projectos Trio K4, Katarchestra e Suna, integra a European Movement Jazz Orchestra (que, recorde-se, além de integrar vários músicos portugueses, gravou o disco “Live in Coimbra” através da Clean Feed). Soma-se uma especial ligação à música turca, particularmente com o seu grupo Acropolis Quintet.

Gravado ao vivo no Festival de Jazz de Ljubliana, na sua terra natal, este “The Lives of Many Others” é um excelente cartão-de-visita. Neste trabalho a solo Kaja Draksler revela toda a sua amplitude expressiva. Com assumida orientação jazzística, mas evidenciando alguma ligação à música clássica e colocando na mistura uma feição exploratória mais contemporânea, com utilização do piano preparado, e abertura à música improvisada.

O disco arranca com a manipulação directa das cordas do piano, num som abrasivo, passando depois para um dedilhar inicialmente minimal, obsessivo, mas que se vai transformando. No segundo tema, uma composição tradicional eslovena (“Vsi So Venci Vejli”), muda-se completamente de registo, evoluindo para uma terna melodia.

Segue-se um forte vendaval de notas, invadindo todo o espaço – parte de “Communicational Entropy” – um original de Thanasis Deligiannis – e desemboca num tema original da pianista, “Andromeda”, caracterizado por uma mansa quietude. À quarta faixa a pianista eslovena apresenta-nos uma majestosa suite dividida em quatro partes.

Depois, regressamos a um tempo mais lento, num tema de breve duração (cerca de dois minutos), para logo de seguida regressar a vertigem, com “Army of Drops”, num pianismo de alta intensidade que leva tudo à frente. O disco fecha com “Delicious Irony”, numa tranquilidade em perfeito equilíbrio.

Esta diversidade de ambientes sonoros atravessa todo o CD, que ora se deixa levar numa onda de calmaria, com notas pingadas suavemente de modo regular, ora embarca numa convulsão extrema, fazendo temer pela resistência do piano. E nunca se deixa antecipar, enganando constantemente o ouvinte incauto.

Sempre surpreendente, a pianista condensa aquilo que aprendeu com Vijay Iyer e Jason Moran (os dois mais consensuais pianista do jazz contemporâneo, correcto?), com a aprendizagem aprofundada de Cecil Taylor, Monk e Bach. Acima de tudo, deixa emergir a sua própria personalidade, abençoada pela liberdade da improvisação.
http://jazz.pt/ponto-escuta/2013/12/10/kaja-draksler-lives-many-others-clean-feed/

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