Daily Archives: May 2, 2014

Expresso review by João Santos

CF 292Kris Davis Trio – Waiting for You to Grow (CF 292)
K
ris Davis – Massive Threads (Thirsty Ear)
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Regressa aos discos a solo Kris Davis – o anterior nesse registo, “Aeriol Piano”, era de 2011 – e, por uma vez, o que se nota é a mecanização de certos recursos. O que só confirma que nem mesmo os mais singulares pianistas são desprovidos de maneirismos. Talvez daí resulte uma afinidade com Monk, neste “Massive Threads” revisitado através de ‘Evidence’, embora a canadiana o agarre como uma decoradora desinteressada em combinar materiais ou sequer a adaptá-los aos espaços a que se destinam. O ritual minimalista de ‘Ten Exorcists’, o romântico fraseado de ‘Desolation and Despair’ ou os espasmos rapsódicos de ‘Intermission Music’ comungam do evangelho pós-modernista mas o mais excitante que possuem é o humor que nos seus títulos se subentende. Há nisto uma qualidade preambular que reduz o escopo da operação. Derradeira peça: ‘Slow Growing’.

Aproveitando a deixa, já a reincidência no trabalho com o trio de “Good Citizen” (Fresh Sound New Talent, 2010) se revela de maior interesse histórico, conquanto ampare uma forma interpessoal de afirmação de personalidade e se arrisque a figurar no blog “Shut The Fuck Up, Parents” (quem comprar o CD há de perceber). Mas é sedutor o seu triângulo de estilos: John Hébert continuamente relaxado, Tom Rainey com uma ousadia absolutamente idiossincrática, Davis de uma teatralidade quase arquitetural. As fórmulas conduzem ao fracasso – ao sucesso, também.

Expresso review by João Santos

CF 289Matt Bauder and Day in Pictures – Nightshades (CF 289)
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Há teorias que pegam por contágio. No caso, desde “Day in Pictures” (2010) que, no domínio da crítica, e a propósito do quinteto de Matt Mauder, se fala de uma proveitosa estilização de figuras com pelo menos 50 anos como se nada de estranho houvesse na redução a aspetos decorativos da parte mais equilibrada do modernismo jazzístico da década de 60 ou como se não estivesse a própria música de Bauder, Nate Wooley, Jason Ajemian, Tomas Fujiwara e Angelica Sanchez (entretanto substituída por Kris Davis) repleta de aforismos da estirpe ‘Nova Iorque é Agora’. Nessa perspetiva, recordando-se um punhado de álbuns de uma só editora, “Nightshades” decalcaria algo do que, em 1964, a Blue Note postulou através de “Point of Departure” (Hill), “The Sidewinder” (Morgan), “JuJu” (Shorter), “Destination… Out!” (McLean) ou, já que, com este título, aludiu Bauder à família botânica da batata, “Out to Lunch!” (Dolphy). A ilação, que ninguém parece tirar, é que tal empreitada – como no “Vou-me Embora para Pasárgada”, de Manuel Bandeira, com o verso “[Lá] Tem alcaloide à vontade” inspirado na mesma ordem de plantas – situaria Bauder nas redondezas da alienação, premissa incompatível com o que se qualifica como a ação de um baluarte da vanguarda. Talvez por isso se transforme aqui o popular em esotérico – conferir o contorno etíope de ‘Octavia Minor’ –, revelando-se restritivo o que já foi ilimitável. De facto, é difícil aceitar que tem cada período da história do jazz de lidar com um conjunto de estéreis convenções. E, no entanto, por nenhum outro motivo tanto estimula a imaginação este “Nightshades”.

 

Downbeat review by Peter Margasak

CF 294

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