Daily Archives: December 4, 2014

Time Out review by José Carlos Fernandes

CF307Adam Lane’s Full Trottle Orchestra – Live in Ljubljana (CF 307)
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Não existe, pelo menos formalmente, uma Associação de Amizade Portugal-Eslovénia, mas a parceria entre a Clean Feed e o Festival de Jazz de Ljubljana supre essa lacuna: este é o sexto CD nascido da frutuosa colaboração e traz-nos um concerto de 2012 com a Full Throttle Orchestra, que, embora seja um octeto, soa frequentemente como uma orquestra – um milagre multiplicativo de que Mingus também conhecia o segredo. Claro que Mingus anda por aqui (também na fogosidade e nas raízes bluesy), bem como Ellington, e por vezes até pode sentir-se os pés a puxarem-nos para a dança – e Adam Lane confirma que nesta banda “it’s all about the groove” – embora os ritmos complexos possam propiciar tropeções e entorses.
As seis composições de Lane (quatro novas e duas repescagens) estendem-se por 10-15 minutos e concedem amplo espaço para os solistas mostrarem o que valem. E valem muito: não há um solo que não seja ardente, inspirado e bem medido e a trompetista portuguesa Susana Santos Silva, que continua a afirmar-se na alta roda do jazz mundial e ocupa o lugar que era de Taylor Ho Bynum no anterior Ashcan Rantings, assina intervenção brilhante em “Sanctum”.
No cerne de tudo está o contrabaixo de Lane, incansável na tarefa de propulsionar o ensemble e com não poucas semelhanças com o contrabaixo de Mingus. Este Live continua a não fazer esquecer os excepcionais No(w) Music e New Magical Kingdom, mas é difícil resiistir à efervescência de solos cruzados no final de “Multiply Then Divide”, ao transe hipnótico de “Ashcan Rantings” ou à apoteose jungle que encerra “Power Lines/Blues for Eddie”.

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Time Out review by José Carlos Fernandes

CF302Peter Van Huffel’s Gorilla Mask – Bite My Blues (CF 302)
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As coordenadas definidas no CD de estreia mantêm-se neste registo de dois concertos no Canadá, com o sax de Peter van Huffel, o baixo eléctrico (frequentemente distorcido) de Roland Fidezius e a bateria de Rudi Fischerlehner a triturar o que lhes aparece pela frente com a insolência com que King Kong esmagava os aeroplanos que lhe esvoaçavam à volta.
“Chained” é uma máquina malévola à desfilada que se desarticula a meio do trajecto e fica a descrever círculos obstinados, como um robot avariado, até que retoma a cavalgada rumo ao Juízio Final; o tema-título é um blues exaurido, que se arrasta por um pântano de pez e enxofre; “Z” começa em registo marcial e desemboca num ritmo brutal, mais afim de Rage Against The Machine do que de Count Basie.

Time Out review by José Carlos Fernandes

CF301Pharoah & The Underground – Spiral Mercury (CF 301)
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Pharoah & The Undergound é a entidade resultante da associação do lendário saxofonista Pharoah Sanders a músicos dos projectos Chicago Undergorund e São Paulo Underground, liderados pelo cornetista Rob Mazurek, e o presente CD documenta o concerto do sexteto no Jazz em Agosto de 2013, no auditório ao ar livre da Fundação Gulbenkian.
As sete faixas fundem-se numa só e oscilam entre ambientes meditativos e grooves encantatórios – os melhores momentos ocorrem em “Blue Sparks From Her”, com um carrocel alucinado a conduzir a uma Twilight Zone tropical, e no fervilhante “Jagoda’s Dream”, mas durante boa parte do concerto Sanders parece pouco sintonizado com o grupo e o cavaquinho de Maurício Takara revela-se uma curiosidade de aplicação limitada.

Time Out review by José Carlos Fernandes

CF298Lawnmower – II (CF 298)
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Entre o 1º e o 2º discos do projecto Lawnmower, do baterista Luther Gray, há diferenças de monta, com as duas guitarras de Farina e Littleton a darem lugar ao violino de Kaethe Hostetter e ao baixo eléctrico de Winston Braman (só o sax de Jim Hobbs se mantém) e a sonoridade e arquitectura foram radicalmente alteradas, de que resulta o opus 2 ser mais sedutor do que o antecessor. O que não quer dizer que se tenham feito quaisquer concessões: basta ouvir a fúria do sax e do violino no extremo agudo em “Tiny Wings” (a evocar uns Sonic Youth em desvario psicadélico), ou o imperturbável tribalismo minimal de “Good Beat” (entre Joy Division e Can), sobre o qual sax e violino tecem curiosos diálogos. Não é música para se ouvir enquanto se jardina.

Time Out review by José Carlos Fernandes

CF294Eric Revis Quartet – In Memory of Things Yet Seen (CF 294)
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O terceiro CD de Revis para a Clean Feed traz mais um line up diferente e, embora os anteriores discos tivessem gente do gabarito de Ken Vandermark, Jason Moran e Nasheet Waits (Parallax) e Kris Davis e Andrew Cyrille (City of Asylum), fazem-se figas para que o novo quarteto se torne numa banda fixa e nos dê muitos discos e concertos – é que Darius Jones e Bill McHenry (saxes) nasceram para tocar juntos e a irrequieta bateria de Chad Taylor complementa na perfeição o groove poderoso do contrabaixo de Revis.

O CD abre em atmosfera onírica, com o vibrafone de Taylor a fazer de caixinha de música, mas logo dá lugar à tagarelice rouca de “Hits” e às constantes guinadas de “Son Seals”, o primeiro de cariz mais improvisativo, o segundo a revelar o aturado trabalho de composição que norteia a maior parte do disco. “Unknown” debita post-bop elástico e vivo e tem a participação de um músico inesperado no catálogo da Clean Feed – o saxofonista Branford Marsallis (há explicação: Revis tem sido um dos pilares do quarteto de Marsallis, numa cumplicidade que leva 15 anos e nove CDs, o que não impede Revis de também tocar com terroristas sónicos como Peter Brötzmann).

O momento mais avassalador é “The Shadow World” (da autoria de Sun Ra), uma tormenta sombria e desvairada, rasgada pelos relâmpagos gémeos dos saxes. Esta medonha procela dá lugar a “Hold My Snow Cone”, cuja serenidade e beleza são miraculosamente potenciadas pelo contraste com os 7’26 febris que ficaram para trás (um disco não é apenas uma colecção aleatória de músicas). Aguarda-se com impaciência o próximo álbum de memórias de coisas ainda por vir.

Time Out review by José Carlos Fernandes

CF 289Matt Bauder and Day in Picture – Nightshades (CF 289)
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O segundo disco do quinteto Day In Pictures do saxofonista Matt Bauder prossegue a rota da estreia: revisitação criativa do hard bop do início dos anos 60. A formação (de luxo) mantém Nate Wooley, Jason Ajemian e Tomas Fujiwara, mas Kris Davis toma o lugar de Angelica Sanchez – o que significa um piano mais seco e percussivo.

A maior surpresa está logo na abertura, pois o encantatório “Octavia Minor” desvia-se dos ambientes hard bop e remete para o Ethio-jazz de inflexões latinas de Mulatu Astatke, ainda que o desconcertante solo de Davis (não contem com ele para fazer o que é previsível) deixe o aviso: os Day in Pictures não estão aqui para fazer pastiches. “Weekly resolution” regressa ao terreno usual do quinteto e retoma, em variante moderna, a faceta mais escaldante dos Jazz Messengers – mas o adstringente e cásutico solo de trompete (as intervenções de Nate Wooley são consistentemente inspiradas, tomem elas um registo mais “clássico” ou mais heterodoxo) e o denso solo de bateria sustentado por um piano minimal-obsessivo lembram que os tempos são outros. “Starr Wykoff” é uma balada “à maneira antiga”, tocada com aprumo e sinceridade e que serve para calar os sectores conservadores que crêem que a nova geração pratica um jazz “esdrúxulo” porque são incompetentes para tocar “como deve ser”. O CD encerra com “Nightshades”, uma marcha jovial, luminosa e bluesy, com Wooley e Bauder em diálogo cúmplice – alguma afinidade com a música de Harris Eisenstadt não será mera coincidência, já que Wooley e Bauder são parceiros recorrentes de Eisentsadt.

Quem seja dado a catalogações que se entretenha a escolher se isto é jazz “modernista” ou “tradicionalista”.