Jazz.pt review by Gonçalo Falcão

CF303Angles 9 – Injuries (CF 303 LP)
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Saiu no final de Maio um grande disco da Clean Feed, grande em todos os sentidos, da música à embalagem. Os Angles são uma das bandas fiéis à editora portuguesa: começou por ser um sexteto formado em 2007 por Martin Küchen que lançou dois CDs (“Every Woman is a Tree” em 2008 e “Epileptical West” em 2010) antes de passar a octeto e gravar “By Way of Deception” (2012). de que só existe a prensagem em vinil.

Contámos sempre com uma enorme dose de intensidade, assente numa fortíssima secção de metais. A música tem uma espécie de jingado soul, que atravessa os temas com melodias atraentes que são entregues com a força e a atitude do “combat rock”. Nas palavras de Küchen: «Bagaloo music for fiesta and contemplation».

O LP duplo da nova formação, que passou a noneto, vem finalmente embalado como deve ser (bom cartão, boa gramagem, com uma imagem de capa fortíssima: os oito expedicionários que acompanharam o norueguês Nansen Fram em 1893, na tentativa (falhada) de pela primeira vez chegar ao Polo Norte. Depois de dois ensaios pouco conseguidos com os Made to Break e o anterior Angles, desta vez a Clean Feed lançou um LP com uma óptima relação táctil e sensorial. E os objectos contam.

«A maior parte de nós fica para trás. Não vamos. Não conseguimos. Ficamos. A maior parte de nós fica», diz-nos o texto de apresentação, que fala de mudança. “Combat jazz”. Entramos no lado A do primeiro vinil pela porta grande, com “European Boogie” e “Eti”, temas rápidos, impulsionadores. O lado B muda completamente de ambiente e toca lento, com enorme beleza lírica. Imóveis, funerários, não são propriamente entrópicos e não convidam a um avanço ponderado. Grande solo to trombone de Mats Äleklint.

O segundo disco mantém a oscilação entre o soul/funk e temas mais contemplativos, que dão vontade de mergulhar na música. Acaba em ambiente festivo. O grupo tem uma enorme leveza e um ritmo acelerado, os solos são magníficos e sempre interessantes de seguir, a composição é alegre e motivadora. Uma escrita belíssima e cantável que dá vontade de dançar.

Tenho assistido frequentemente à comparação deste “Injuries” com a Liberation Music Orchestra de Charlie Haden, o que se deve, provavelmente, ao sabor alegre e libertário da música. Mas é uma descendência que lhe fica curta: o que se ouve em “Injuries” é muito mais consciente, maduro, objectivo e swingante.

A Liberation marcha, os Angles dançam, festejam. São psicossociais, lutadores e esperançosos. Devêmo-lo ao punk, que nos salvou de toda a ingenuidade.

http://jazz.pt/ponto-escuta/2014/06/11/angles-9-injuries-clean-feed/

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