Jazz.pt review by Gonçalo Falcão

CF300LPPharoah & The Underground – Primative Jupiter (CF 300 LP) / Spiral Mercury (CF 301)
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Em boa hora (2009) a Gulbenkian começou a permitir a edição de alguns dos seus concertos no Jazz em Agosto. Pena é que esta ideia não tenha começado em 1983, para podermos hoje ter discos de elevadíssima qualidade gravados no Anfiteatro ao Ar Livre. Circulam cópias de alguns desses concertos na Internet (Sun Ra, por exemplo), dando a perceber que se perderam notáveis registos musicais.

Os dois novos itens da Jazz em Agosto Series da Clean Feed são um CD e um LP de Pharoah & The Underground, e apesar da mesma capa, o compacto e o vinil têm conteúdos diferentes, pois as quase duas horas de concerto possibilitaram a partição: o LP “Primative Jupiter”) traz dois temas que não estão no CD e este (“Spiral Mercury”) cinco que não se encontram na outra edição. Más notícias para os bolsos.

O concerto que encerrou o festival do ano passado (e que esteve em dúvida devido a problemas de saúde do histórico saxofonista) juntou Pharoah Sanders a uma formação que fundiu o Chicago e o São Paulo Underground (ambos os grupos liderados pelo cornetista e compositor Rob Mazurek).

Mazurek é o centro de toda a acção, não só pelas suas gigantescas capacidade melódica e inteligência musical – o seu ouvido, em suma – como enquanto estratega, capaz de visionar ideias para palco. As duas formações têm personalidades muito diferentes: na São Paulo Underground predomina a electrónica “lo-fi”, suja e em reprocessamento dos sons da música popular brasileira (cavaquinho, cuíca), com uma expressividade completamente nova (ou seja, não colada ao estereótipo brasileiro). Já o Chicago Underground gosta de territórios completamente diferentes, com o baixo eléctrico em linhas repetitivas que prendem toda a música e a bateria a construir uma base infernal, dando sentido às melodias que Mazurek desenvolve.

Ao vivo, os dois grupos adaptaram-se perfeitamente, com os de Chigago a marcarem ritmos e os de São Paulo a aceitá-los, acentuando a componente tímbrica. Ouvido agora com mais detalhe e repetidamente, a impressão inicial – boa – afina-se para melhor. É o cornetista que define os temas e lança a estrutura da melodia, deixando Sanders livre para solar. O jazz “afro-cósmico-espiritual” de Sanders continua a funcionar e o seu sopro permanece lírico e espiritual, mas agora mais discreto e menos interventivo.

O saxofone aparece a espaços, sem muita força, optando muitas vezes por surgir sob o trompete de Mazurek, como se o quisesse acentuar e colorir. Mais próximo do Miles eléctrico do que de Coltrane, Pharoah actua com um radar que capta e desenvolve ideias. Usa muitas vezes linhas melódicas longas e tranquilas, como se preferisse surfar aquela onda calmamente do que intervir com solos inflamados, como cabe a uma estrela. O resultado é claramente mais interessante assim, sem o Pharoah que se esperaria (e que o título do disco sugere), mas com uma música globalmente muito boa de ouvir.

É ainda melhor assim porque, em vez de a lenda se museografar, tocando o que já lhe conhecemos e o que dele esperamos, reinventa-se, num contexto diferente, onde passa a ser só mais um. Não é menos lenda por isso, mas é muito mais viva.

http://jazz.pt/ponto-escuta/2014/08/24/pharoah-underground-primative-jupiter-spiral-mercury-clean-feed/

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