Tag Archives: Matt Bauder

Jazz.pt review by Gonçalo Falcão

CF307Adam Lane’s Full Throttle Orchestra – Live in Ljubljana (CF 307)
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Gravado ao vivo na 53ª edição do Festival de Jazz de Ljubljana (2012), um dos mais antigos do mundo, surge o grande disco de Verão deste ano, que estou certo vai invadir as pistas de dança. A música de Adam Lane é belíssima, misturando o “swing” do jazz clássico com a “soul” do hard bop e com o “groove” do funk (ou não fosse Lane um contrabaixista).

Apesar de ser um grupo relativamente pequeno, com oito elementos, a música soa claramente orquestral, com os dois trompetes (Nate Wooley e Susana Santos Silva), o trombone (Reut Regev) e os três saxofones (Matt Bauder, David Bindman e Avral Fefer) a construírem uma máquina que obriga o corpo a mexer-se e o pé a bater. “Fitness” para as sinapses do ritmo.

Tudo parte de linhas de baixo “funky”, com o som cheio do contrabaixo de Lane, que faz inveja a qualquer disco da Motown. À volta, várias melodias belíssimas são entregues pelos metais, que ora atacam em grupo ou desenvolvem formas complementares. O uníssono dos metais não tem o rigor ellingtoniano, o que gera um sentido de descontracção agradável e contemporâneo.

Ambientes muito bem criados, dançáveis, com canções apropriadas para dias de sol e ar livre, música luminosa, muito bem tocada, com excelentes solos. O que é que se pode pedir mais?

Numa época de duos e trios porque não há dinheiro para mais, a Full Throttle vai seguindo um caminho interessante (Cadence 2001, Clean Feed 2006 e 2009), a que se junta agora esta gravação de 2012. Lane é um grande contrabaixista da actualidade, com um som notavelmente forte e poderoso e uma musicalidade bela e simples. A música que escreve e a forma elegante como esta orquestra a pratica colocam este disco obrigatoriamente no leitor de CDs de quem quer viver bem um dia de Verão (mesmo no Inverno).

http://jazz.pt/ponto-escuta/2014/08/25/adam-lanes-full-throttle-orchestra-live-ljubljana-clean-feed/

Time Out review by José Carlos Fernandes

CF307Adam Lane’s Full Trottle Orchestra – Live in Ljubljana (CF 307)
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Não existe, pelo menos formalmente, uma Associação de Amizade Portugal-Eslovénia, mas a parceria entre a Clean Feed e o Festival de Jazz de Ljubljana supre essa lacuna: este é o sexto CD nascido da frutuosa colaboração e traz-nos um concerto de 2012 com a Full Throttle Orchestra, que, embora seja um octeto, soa frequentemente como uma orquestra – um milagre multiplicativo de que Mingus também conhecia o segredo. Claro que Mingus anda por aqui (também na fogosidade e nas raízes bluesy), bem como Ellington, e por vezes até pode sentir-se os pés a puxarem-nos para a dança – e Adam Lane confirma que nesta banda “it’s all about the groove” – embora os ritmos complexos possam propiciar tropeções e entorses.
As seis composições de Lane (quatro novas e duas repescagens) estendem-se por 10-15 minutos e concedem amplo espaço para os solistas mostrarem o que valem. E valem muito: não há um solo que não seja ardente, inspirado e bem medido e a trompetista portuguesa Susana Santos Silva, que continua a afirmar-se na alta roda do jazz mundial e ocupa o lugar que era de Taylor Ho Bynum no anterior Ashcan Rantings, assina intervenção brilhante em “Sanctum”.
No cerne de tudo está o contrabaixo de Lane, incansável na tarefa de propulsionar o ensemble e com não poucas semelhanças com o contrabaixo de Mingus. Este Live continua a não fazer esquecer os excepcionais No(w) Music e New Magical Kingdom, mas é difícil resiistir à efervescência de solos cruzados no final de “Multiply Then Divide”, ao transe hipnótico de “Ashcan Rantings” ou à apoteose jungle que encerra “Power Lines/Blues for Eddie”.

Time Out review by José Carlos Fernandes

CF 289Matt Bauder and Day in Picture – Nightshades (CF 289)
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O segundo disco do quinteto Day In Pictures do saxofonista Matt Bauder prossegue a rota da estreia: revisitação criativa do hard bop do início dos anos 60. A formação (de luxo) mantém Nate Wooley, Jason Ajemian e Tomas Fujiwara, mas Kris Davis toma o lugar de Angelica Sanchez – o que significa um piano mais seco e percussivo.

A maior surpresa está logo na abertura, pois o encantatório “Octavia Minor” desvia-se dos ambientes hard bop e remete para o Ethio-jazz de inflexões latinas de Mulatu Astatke, ainda que o desconcertante solo de Davis (não contem com ele para fazer o que é previsível) deixe o aviso: os Day in Pictures não estão aqui para fazer pastiches. “Weekly resolution” regressa ao terreno usual do quinteto e retoma, em variante moderna, a faceta mais escaldante dos Jazz Messengers – mas o adstringente e cásutico solo de trompete (as intervenções de Nate Wooley são consistentemente inspiradas, tomem elas um registo mais “clássico” ou mais heterodoxo) e o denso solo de bateria sustentado por um piano minimal-obsessivo lembram que os tempos são outros. “Starr Wykoff” é uma balada “à maneira antiga”, tocada com aprumo e sinceridade e que serve para calar os sectores conservadores que crêem que a nova geração pratica um jazz “esdrúxulo” porque são incompetentes para tocar “como deve ser”. O CD encerra com “Nightshades”, uma marcha jovial, luminosa e bluesy, com Wooley e Bauder em diálogo cúmplice – alguma afinidade com a música de Harris Eisenstadt não será mera coincidência, já que Wooley e Bauder são parceiros recorrentes de Eisentsadt.

Quem seja dado a catalogações que se entretenha a escolher se isto é jazz “modernista” ou “tradicionalista”.

Point of Departure review by Troy Collins

CF 289Matt Bauder and Day in Pictures – Nightshades (CF 289)
Nightshades is the most accessible offering to date in Brooklyn-based tenor saxophonist Matt Bauder’s burgeoning discography. Brimming with nostalgic melodies, rich harmonies and elastic rhythms, the highly appealing session shares more than a passing resemblance to classic records issued by Blue Note in the 1960s, recalling a time when jazz still reigned as the popular music of the day.

Following in the footsteps of the group’s 2010 self-titled Clean Feed debut, Bauder’s Day in Pictures continues to explore intricate structural nuances of the post-bop continuum, hemming ever closer to conventional forms. Enjoying the support of a fairly stable lineup, Bauder is once again joined by trumpeter Nate Wooley, bassist Jason Ajemian and drummer Tomas Fujiwara, while pianist Kris Davis takes the place of Angelica Sanchez. Davis’ appearance is noteworthy; where Sanchez brought a penchant for expansive contrapuntal harmony to the group, Davis takes a more focused, linear approach, offering a profusion of melodic invention in her brisk, chromatic delivery.

Davis’ quicksilver pianism meshes well with Ajemian’s supple bass lines and Fujiwara’s spirited kit-work; their skillful interplay yields a modulating undercurrent of melodic, harmonic and rhythmic activity that inspires daring excursions from the versatile frontline. As one of the key young masters of new trumpet technique, Wooley makes a fitting foil for the leader, underscoring Bauder’s sinuous refrains with coruscating asides tempered by an increasingly sophisticated lyricism. Bauder reveals a diverse array of expressionism, whether waxing romantic on the lush ballad “Starr Wykoff,” swinging with full-throated verve through the second line-infused title track, or plying nervy multiphonics on more assertive fare like “Rule of Thirds.”

Although the material on Nightshades is stylistically similar to the quintet’s previous effort, each tune investigates slightly different territory, ranging from the slinky deconstructed bossa nova groove of “Octavia Minor” to the collective New Thing-inspired rapture of “August and Counting.” The duration of each piece hovers around the ten minute mark, allowing individual members time to extrapolate on Bauder’s melody-rich themes.

In direct contrast to some of his more experimental projects, like Memorize The Sky, the material performed by Day in Pictures highlights Bauder’s most conventionally jazz-oriented writing. The end result is a historically aware exploration of the tenuous divide between freedom and form – a bold, but beautiful album.
http://www.pointofdeparture.org/PoD47/PoD47MoreMoments2.html

Point of Departure review by Troy Collins

CF 289Matt Bauder and Day in Pictures – Nightshades (CF 289)
Nightshades is the most accessible offering to date in Brooklyn-based tenor saxophonist Matt Bauder’s burgeoning discography. Brimming with nostalgic melodies, rich harmonies and elastic rhythms, the highly appealing session shares more than a passing resemblance to classic records issued by Blue Note in the 1960s, recalling a time when jazz still reigned as the popular music of the day.

Following in the footsteps of the group’s 2010 self-titled Clean Feed debut, Bauder’s Day in Pictures continues to explore intricate structural nuances of the post-bop continuum, hemming ever closer to conventional forms. Enjoying the support of a fairly stable lineup, Bauder is once again joined by trumpeter Nate Wooley, bassist Jason Ajemian and drummer Tomas Fujiwara, while pianist Kris Davis takes the place of Angelica Sanchez. Davis’ appearance is noteworthy; where Sanchez brought a penchant for expansive contrapuntal harmony to the group, Davis takes a more focused, linear approach, offering a profusion of melodic invention in her brisk, chromatic delivery.

Davis’ quicksilver pianism meshes well with Ajemian’s supple bass lines and Fujiwara’s spirited kit-work; their skillful interplay yields a modulating undercurrent of melodic, harmonic and rhythmic activity that inspires daring excursions from the versatile frontline. As one of the key young masters of new trumpet technique, Wooley makes a fitting foil for the leader, underscoring Bauder’s sinuous refrains with coruscating asides tempered by an increasingly sophisticated lyricism. Bauder reveals a diverse array of expressionism, whether waxing romantic on the lush ballad “Starr Wykoff,” swinging with full-throated verve through the second line-infused title track, or plying nervy multiphonics on more assertive fare like “Rule of Thirds.”

Although the material on Nightshades is stylistically similar to the quintet’s previous effort, each tune investigates slightly different territory, ranging from the slinky deconstructed bossa nova groove of “Octavia Minor” to the collective New Thing-inspired rapture of “August and Counting.” The duration of each piece hovers around the ten minute mark, allowing individual members time to extrapolate on Bauder’s melody-rich themes.

In direct contrast to some of his more experimental projects, like Memorize The Sky, the material performed by Day in Pictures highlights Bauder’s most conventionally jazz-oriented writing. The end result is a historically aware exploration of the tenuous divide between freedom and form – a bold, but beautiful album.
http://www.pointofdeparture.org/PoD47/PoD47MoreMoments2.html

Expresso review by João Santos

CF 289Matt Bauder and Day in Pictures – Nightshades (CF 289)
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Há teorias que pegam por contágio. No caso, desde “Day in Pictures” (2010) que, no domínio da crítica, e a propósito do quinteto de Matt Mauder, se fala de uma proveitosa estilização de figuras com pelo menos 50 anos como se nada de estranho houvesse na redução a aspetos decorativos da parte mais equilibrada do modernismo jazzístico da década de 60 ou como se não estivesse a própria música de Bauder, Nate Wooley, Jason Ajemian, Tomas Fujiwara e Angelica Sanchez (entretanto substituída por Kris Davis) repleta de aforismos da estirpe ‘Nova Iorque é Agora’. Nessa perspetiva, recordando-se um punhado de álbuns de uma só editora, “Nightshades” decalcaria algo do que, em 1964, a Blue Note postulou através de “Point of Departure” (Hill), “The Sidewinder” (Morgan), “JuJu” (Shorter), “Destination… Out!” (McLean) ou, já que, com este título, aludiu Bauder à família botânica da batata, “Out to Lunch!” (Dolphy). A ilação, que ninguém parece tirar, é que tal empreitada – como no “Vou-me Embora para Pasárgada”, de Manuel Bandeira, com o verso “[Lá] Tem alcaloide à vontade” inspirado na mesma ordem de plantas – situaria Bauder nas redondezas da alienação, premissa incompatível com o que se qualifica como a ação de um baluarte da vanguarda. Talvez por isso se transforme aqui o popular em esotérico – conferir o contorno etíope de ‘Octavia Minor’ –, revelando-se restritivo o que já foi ilimitável. De facto, é difícil aceitar que tem cada período da história do jazz de lidar com um conjunto de estéreis convenções. E, no entanto, por nenhum outro motivo tanto estimula a imaginação este “Nightshades”.

 

Dusted Magazine review by Bill Meyer

CF 289Matt Bauder And Day In Pictures—Nightshades (CF 289)
Matt Bauder is a man of diverse interests. A former student of Anthony Braxton’s, the reed player has reinterpreted doo–wop, explored the intersection of minimalist process music and improvisation and occupied the horn chair in Arcade Fire. If one thing ties together these endeavors, it’s his determination to respect what he is playing but not simply take it at face value. Bauder finds a way to put a very personal spin on whatever he plays, and that is just as true with jazz combo Day In Pictures. The quintet, which includes trumpeter Nate Wooley, pianist Kris Davis (replacing Angelica Sanchez), bassist Jason Ajemian, and drummer Tomas Fujiwara, takes the sounds and conventions of what was called modern jazz half a century ago and reconciles it with more contemporary elements.

Neither side subverts the other, and both get their due.
“Octavia Minor” kicks things off with a hell of a scenario. What if Ethio-jazz originator Mulatu Astatke had arranged and composed for Horace Silver in the mid-’60s? The rhythm section finds common ground between them right away, with Davis’s insistent left hand and short ascending figures introducing a sinuous twist to Ajermian and Fujiwara’s Latin-tinged swing. Bauder’s tenor comes in with a bent note so alluring you want to give it your wallet, then plays out a series of questing variations on the tune that seem to dance close to Davis’s accompaniment without ever quite touching. Further on, he restates the theme with a rough flutter that Wooley picks up and elaborates; the horn language says improv, now as forcefully as the harmonies and rhythms say Addis and NYC, then. The boundaries between decades dissolve.

One could count down the ways that post-micro-sound gets in bed with Blue note-vintage Wayne Shorter, and contemporary noise hooks elbows with funny hat-era Pharoah Sanders, but it would probably be more fun for you to play through the record and marvel at these resolutions of difference for yourself.

Or one could simply step back and admire the way rigorous execution and pleasurable expression become one throughout this marvelous album. No one is doing more these days to make accessible sense of jazz’s advances since the Eisenhower administration than this ensemble and Wooley’s similarly focused Sextet, which also records for Clean Feed. Next time someone questions jazz’s viability, play ‘em this.
http://dustedmagazine.tumblr.com/post/84138202270/matt-bauder-and-day-in-pictures-nightshades-clean